quinta-feira, 4 de março de 2010

Perfins - poeta Murilo Aranha, 120 anos.

Murilo Aranha *1890 +1919. (Foto: acervo Anderson Tavares)

Capa do livro César Borgia, de 1918.

Capa do livro Nevroses, 1919.

Pesquisando a genealogia das antigas famílias macaibenses, descobri um termo de casamento datado de 09 de outubro de 1881, que apontava para a união do paraibano Fortunato Rufino de Aranha, de 19 anos e Bernardina Olyndina de Oliveira com 21. No documento ainda observa-se que Fortunato era filho natural de Joaquina Francisca de Aranha e Bernardina, filha de Belarmino de Oliveira Castro e Ignácia Maria da Conceição.


Pouco depois da união, Fortunato passa a ajudar o sogro em um pequeno comercio de miudezas. Logo o jovem casal se integra a vida social da tumultuada Macaíba daqueles anos e Fortunato Aranha chega a ser um dos fundadores do Grêmio Literário “Tobias Barreto”, em 1891, ao lado de Henrique Castriciano, Francisco Freire da Cruz, Augusto Tavares de Lyra, Alberto Maranhão e João de Lyra Tavares, entre outros nomes de jovens expoentes da intelectualidade local. Fortunato Aranha assumiu, então, o cargo na nova sociedade cultural de bibliotecário, prenuncio de seu futuro como proprietário da livraria Cosmopolita – a primeira de Natal.


Os filhos viam chegando, ano após ano, totalizando uma prole de 13 filhos: Cleodon, Jayme, Victor Hugo, Solon, Milton, Cícero, Gilberto, Murilo, Angelina, Laura, Cecília, Ignez e Maria Aranha.
Destes filhos, Victor Hugo e Murilo Aranha destacam-se como poetas. Detenho-me sobre Murilo Aranha, nascido em 24 de junho de 1890. Publicou os seus primeiros versos aos 14 anos de idade, sendo o seu primeiro trabalho publicado o livreto César Bórgia (Sonetos), Tip. De Augusto Leite de Natal, 1918.

Mais tarde dedicou-se ao jornalismo literário tendo escrito em vários periódicos literários que circulavam em Natal e nos jornais "Gazeta do Comércio", "Trabalho", "Diário de Natal", "República" e "Imprensa". No Rio de Janeiro, estudou odontologia e fez parte da redação do Correio da Noite e d´A Revista Azul. Se sentido doente retorna ao Rio Grande do Norte, estabelecendo-se em Lages onde fundou o jornal A Pátria, e diretor do Externato Coronel Cascudo.

Numa página de saudade o amigo Câmara Cascudo afirma que Murilo Aranha foi um homem que possuiu uma sólida cultura filosófica, discípulo de Nietzsche, advindo daí a sua “desunião com o mundo das coisas”.

Sonetista famoso, leitor de filosofia e poeta de versos sonoros Murilo Aranha foi um poeta parnasiano, com um lirismo branco e dolente, seguidor de Olavo Bilac.

O jornal A República, noticiando a sua morte destaca: em Lages (...) finou-se ante-hontem às 18 horas, o inditoso moço Murilo Aranha (...) fervoroso cultor das letras, sendo as suas poesias muito apreciadas pela forma e estylo sempre cuidados. Era 23 de junho de 1919. Ainda Câmara Cascudo dizia sobre o desaparecimento do poeta macaibense: perco um amigo. O meu Estado perde um poeta, talvez um dos mais vibrantes e magníficos.

Alguns meses após o seu falecimento foi lançado o seu Nevroses (Versos). Livraria Leite Ribeiro & Maurílio. Rio 1919, dedicado ao conterrâneo Henrique Castriciano. Deixou “Catedral", quase completo. Murilo Aranha foi um dos reais talentos da sua geração. Relembro-o neste ano, quando comemoraremos os seus 120 anos de nascimento.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Cajazeiras

O nome mais antigo ligado ao Distrito de Cajazeiras é o da senhora Maria de Congonguis, conhecida por Maria da Lagoa, que juntamente com familiares se fixaram próximo a uma lagoa onde se destacava três pés de Cajá. Assim, o local passou a ser conhecido como Lagoa do Cajá.

Emigrado da Paraíba, o Sr. Francisco Albino da Silva chegou à comunidade com sua família, passando a cultivar a terra. Foi ele quem criou uma casa de farinha cuja produção era enviada para o porto de Guarapes. Em 24 de dezembro de 1878, Francisco Albino reuniu-se numa festa com familiares e amigos e propôs a mudança do nome de Lagoa do Cajá para Cajazeiras, cidade da qual era oriundo.


Em 13 de dezembro de1885, foi celebrada a missa para a oficialização da padroeira da comunidade: Santa Luzia. A imagem da santa foi doada pela senhora Vicência Duarte. A primeira capela foi construída em 1905, sendo transferida em 1972 para outra maior.


Cajazeiras possui um cemitério construído em terras doadas por Maria Adriana Farias. No ano 2000, um mutirão comunitário reformou e ampliou as instalações do primitivo cemitério que recebeu o nome de Nova Morada.

Com uma população de 2.233 pessoas, Cajazeiras tem sua economia baseada na agricultura, comércio e artesanato. Em 2002, foi fundada uma feira onde é comercializada a tapioca, o beiju e o tradicional sequilho.

Na área da saúde dispõe de um PSF (Posto de Saúde Familiar) que fornece diversos serviços. A Escola Municipal Santa Luzia foi fundada em 1963. Atualmente, possui 308 alunos. E a Creche municipal atende a crianças de cinco a seis anos. A comunidade possui dois campos de futebol pertencentes às duas agremiações locais: União Futebol Clube e Clube de Regatas Brasil.

Cajazeiras permanece uma parada obrigatória para os viajantes do Seridó, mantendo uma tradição iniciada com os antigos tropeiros vindos do sertão com suas mercadorias transportadas pelas águas do Jundiaí.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O desembarque de Luis Tavares de Lyra


Luis Tavares de Lyra foi o 4º macaibense formado em direito pela Faculdade de Direito do Recife, na turma de 1902. Terminar uma graduação hoje em dia já não é coisa difícil em face das inúmeras facilidades de ingresso em diversas faculdades existentes.



Em 1902 era bem diferente. Tudo era imensamente mais complicado. O Rio Grande do Norte não dispunha de ensino superior. Estudava-se tradicionalmente direito, em Recife, ou medicina, na Bahia.

Antes de Luis, formaram-se na turma de 1892, os macaibenses Alberto Maranhão e Augusto Tavares de Lyra, este irmão de Luis. Um pouco depois, em 1894, formava-se o Dr. João Chaves – João Batista de Vasconcelos Chaves.


Chamou-me a atenção a noticia veiculada no jornal A República, de segunda feira, 29 de dezembro de 1902, primeira página, a qual transcrevo Ipsis litteris para que o leitor possa construir uma idéia da festa que era a chegada de mais um filho da terra bacharel.

“Dr. Luis Tavares de Lyra

Escrevem-nos da Macahyba


Às 11 horas do dia 22 teve lugar o desembarque do Dr. Luis Lyra, recentemente formado em direito, que foi muito concorrido. As ruas por onde tinha-se de passar estavam ornadas de bandeiras multicores com as iniciais L.L.


Chegando em sua casa o Dr. Lyra ofereceu a todos um abundante copo de cerveja, seguindo-se um lauto almoço, no qual brindaram o novo bacharel o Dr. Teotônio Freire e o Capitão Antônio Adolfo, ao que ele agradeceu com palavras amáveis e elevadas.


Durante todo o dia, foi muito cumprimentado. No caes do desembarque tocou a música “José de Alencar”, indo até a casa, onde tocou por ocasião do almoço. O Sr. Antônio Andrade, seu amigo, espontaneamente encarregou-se de promover essa festa.


O grêmio literário “Tobias Barreto” desejando manifestar o contentamento e a satisfação que lhe causara a chegada do ilustre moço, seu sócio benemérito, mandou uma comissão cumprimentá-lo, a qual foi acompanhada da filarmônica do grêmio.


Foi interprete dos sentimentos dos seus colegas o Sr. Francisco da Cruz que proferiu um eloqüente discurso. Aos manifestantes foi servida uma mesa especial, notando-se a alegria no semblante de todos.


A filarmônica executou lindas peças do seu repertório. Às 11 horas da noite, retiraram-se todos satisfeitos com o tratamento fidalgo, que lhes dispensou o Dr. Luis Tavares de Lyra e sua família.
Foi incontestavelmente uma bela festa a chegada do Dr. Luis Lyra em Macaíba.”


Luis Tavares de Lyra foi um estudante pobre, subvencionado, assim como o irmão Augusto, pelo avô materno Cel. João Batista de Albuquerque Vasconcelos que não media esforços para manter os netos no Recife.


Ainda em 1902, Luis Tavares de Lyra foi nomeado promotor público da comarca de Natal, seguindo-se o cargo de juiz de direito em São José de Mipibú e procurador de justiça do Estado.


Aos 30 anos já era desembargador. Como membro mais antigo do Tribunal de Justiça, instalou e presidiu durante 5 (cinco) anos o Tribunal de Justiça Eleitoral.


Faleceu na cidade do Natal em 1962, aos 82 anos.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Paisagens Potyguares - A casa do Barão de Ceará-Mirim

Solar São Francisco - antiga sede do engenho do mesmo nome. (foto: Gibson Machado)

Barão do Ceará-Mirim
Manoel Varela do Nascimento pertenceu ao seleto grupo de potiguares distinguidos como nobres pelo Imperador D. Pedro II. Já havia presidido a câmara municipal de Extremoz, nos anos de 1829-32 e 1837-40, em 1852 recebia com honras o comando superior da Guarda Nacional dos municípios de Natal, São Gonçalo do Amarante, Extremoz e Touros; foi deputado provincial entre 1868-69 e, durante este mandando, 3º Vice-Presidente da Província do RN.

Senhor de engenho vitorioso no Ceará-Mirim, onde nasceu no natal de 1802, mais precisamente no sítio Veríssimo, foi um dos primeiros proprietários de engenho a utilizar cilindros horizontais, na moagem de cana, em substituição aos cilindros verticais, comumente utilizados. Foi o divulgador da cana de “cayenne” – nordestinizada como caina.


Contudo, o que destacava Cel. Manoel Varela do Nascimento para o recebimento de um título nobiliárquico era o seu devotamento à causa da instrução pública. D. Pedro II foi um governante constantemente preocupado com a educação e tendo em vista os relevantes serviços prestados por Manoel Varela à educação em seu município, fato que resultaria na construção de um estabelecimento escola em 05 de novembro de 1878, teve a distinção de ser o primeiro potiguar a ser agraciado com o título de barão por decreto imperial de 22 de junho de 1874. Ceará-Mirim, sua terra, sua urbe, seu mundo foi o nome que desejou acrescer ao baronato, passando Manoel Varela do Nascimento a ser conhecido como Barão de Ceará-Mirim.


O Barão do Ceará-Mirim foi uma das grandes figuras dominadoras e carismáticas de outrora. E, não obstante sua vida pública movimentada, seu status de nobre brasileiro, permanece um desconhecido personagem de nossa história. Faleceu no dia 01 de março de 1881 e a baronesa Bernarda Varela Dantas no dia 16 de julho de 1890, tendo nascido em 17 de junho de 1821.Manoel Varela do Nascimento pertenceu ao seleto grupo de potiguares distinguidos como nobres pelo Imperador D. Pedro II. Já havia presidido a câmara municipal de Extremoz, nos anos de 1829-32 e 1837-40, em 1852 recebia com honras o comando superior da Guarda Nacional dos municípios de Natal, São Gonçalo do Amarante, Extremoz e Touros; foi deputado provincial entre 1868-69 e, durante este mandando, 3º Vice-Presidente da Província do RN.


Senhor de engenho vitorioso no Ceará-Mirim, onde nasceu no natal de 1802, mais precisamente no sítio Veríssimo, foi um dos primeiros proprietários de engenho a utilizar cilindros horizontais, na moagem de cana, em substituição aos cilindros verticais, comumente utilizados. Foi o divulgador da cana de “cayenne” – nordestinizada como caina.


Contudo, o que destacava Cel. Manoel Varela do Nascimento para o recebimento de um título nobiliárquico era o seu devotamento à causa da instrução pública. D. Pedro II foi um governante constantemente preocupado com a educação e tendo em vista os relevantes serviços prestados por Manoel Varela à educação em seu município, fato que resultaria na construção de um estabelecimento escola em 05 de novembro de 1878, teve a distinção de ser o primeiro potiguar a ser agraciado com o título de barão por decreto imperial de 22 de junho de 1874. Ceará-Mirim, sua terra, sua urbe, seu mundo foi o nome que desejou acrescer ao baronato, passando Manoel Varela do Nascimento a ser conhecido como Barão de Ceará-Mirim.


O Barão do Ceará-Mirim foi uma das grandes figuras dominadoras e carismáticas de outrora. E, não obstante sua vida pública movimentada, seu status de nobre brasileiro, permanece um desconhecido personagem de nossa história. Faleceu no dia 01 de março de 1881 e a baronesa Bernarda Varela Dantas no dia 16 de julho de 1890, tendo nascido em 17 de junho de 1821.

Jaigo pérpetuo dos Barões de Ceará-Mirim

Aspecto da capela do antigo engenho São Francisco, tendo à frente o cemitério particular.

Das diversas propriedades acumuladas pelo barão, destacamos a que lhe srviu de ultima residência – o engenho São Francisco, atualmente convertido em usina e pertencente ao Sr. Geraldo José Ferreira de Melo.

Construção de singular importância para a história política e social do Rio Grande do Norte, a casa grande do antigo engenho São Francisco, segundo a arquiteta Jeanne Nesi, foi desenvolvida em dois pavimentos, apresentando planta quadrangular, com coberturas de quatro águas, beiral corrido com extremidades em “caudas de andorinha”, arrematado por cimalha.

A fachada principal da casa possui uma porta de acesso, ladeada por seis janelas, superpostas por sete janelas rasgadas, guarnecidas por uma única grade de ferro. Todos os vãos são de arcos abatidos, com cercaduras de massa. Na época do barão, ostentava o belo revestimento de cerâmica do Porto, hoje desaparecido.

O piso térreo do prédio é cimentado, sendo conservado o assoalho de tabuado corrido, no pavimento superior. O forro tabuado do térreo permanece, e, no superior, foi colocado gesso. Na parede da sala de honra da antiga residência, repousavam serenos os retratos pintados por um Frances, do Barão e da Baronesa, hoje estão recolhidos ao belo solar do engenho Nascença, pertencente aos herdeiros do descendente e guardião Roberto Varela (*1928 +2006), que me apresentou as imagens durante visita àquele engenho.

Completando a tríade casa-grande e engenho a propriedade dispõe da antiga capela de Nossa Senhora da Conceição, no cemitério da qual repousam os restos mortais dos barões imperiais e outros membros da família.

A casa-grande está razoavelmente conservada, tendo sofrido algumas modificações que a adequaram ao seu atual uso. É preciso que seja tombada pela Fundação José Augusto, para que seja resguardado da especulação e obtenha o reconhecimento oficial de sua importância histórica, artística e sentimental para o vale do Ceará-Mirim e o Rio Grande do Norte.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ascendência e descendência de João Café Filho

Domingos João Campos *1714 +1795, filho de Felipe Francisco e Isabel Fernandes, neto paterno de Antônio Simão e Isabel Paes, neto materno de Manoel e Ana Fernandes. Domingos João Gomes casou-se na capela de Nossa Senhora da Conceição do Jundiaí em 1745 com Maria Rosa de Mendonça *1727 +1797.

Deste tronco, provém o filho Manoel Fernandes Campos casado com Mariana da Costa, que tiveram Lorenço Fernandes Campos casado em 1830, em Natal com Josefa Tereza das Virges, filha de Manoel Ignácio Barbosa e Florência Maria de Nazaré.

O casal Manoel Ignácio Barbosa e Florência Maria de Nazaré foram os pais de;
Lourenço Fernandes Campos Júnior casado com Felismina Carolina de Moura Soares que por sua vez foram pais de;



João Fernandes Campos Café*1865 +1931 casado com Florência Amélia*1877 +1944, pais de João Café Filho *03-02-1899 +20-02-1970.


João Café Filho casou com Jandira Carvalho de Oliveira *17-09-1904 +28-02-1989, filha de Ovídio Fernandes de Oliveira e Joana Hercília Carvalho, esta descendente da família Teixeira de Moura.


João Café Filho e Jandira Café tiveram um único filho;


Eduardo Antônio de Oliveira Café *19-09-1943 +20-08-1974 (em acidente aeronáutico a serviço). Casou em 26-12-1966 com Marisa Torres de Oliveira *09-10-1945, foram os pais de:

N.1 Ana Paula Torres Café *1967, casada em 1999 com Ronaldo Frazatto Massarotto *1963, pais de;

Bn1. Maria Eduarda Café Massarotto *2000.


Bn2. Manuela Café Massarotto *15-04-2003.

N.2 João Café Filho Neto *1970, casado no ano 2000 com Luciana Soares Pontes *1970, pais de;


Bn3. Bruna Pontes Café *10-04-2001.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Oliveira Lima em Macaíba

Parte do grupo que veio à Macaíba: da esq. p/ dir. Romualdo Galvão, Henrique Castriciano, Meira e Sá, Oliveira Lima e o Cel. Pedro Soares de Araújo. Sentadas as primeiras alunas concluintes de 1919 da Escola Doméstica. (Acervo Anderson Tavares)

Quinta feira, 27 de novembro de 1919. Às 6 e 15 da manhã, uma comitiva ilustre embarcava no Cais Tavares de Lyra, em Natal, com destino à Macaíba. Tratava-se do Ministro Manuel de Oliveira Lima (*1867 +1928), conhecido na literatura nacional como Oliveira Lima. O ilustre escritor estava em Natal convidado que foi do Dr. Henrique Castriciano de Souza para paraninfar a primeira turma concluinte da Escola Doméstica de Natal. Acompanhavam-no sua esposa e duas sobrinhas; Alice Cavalcanti e Maria Paula, além das jovens natalenses Luiza Dantas, Maurilia Guerra e os senhores Dr. Arthur Cavalcanti, engenheiro Eduardo Parisot, Felipe Guerra e Adauto Câmara, todos ciceroneados pelo grande Henrique Castriciano, que com orgulho, apresentava o seu berço ao ilustre literato.


Durante o percurso pelo rio Jundiaí o Dr. Oliveira Lima falou apresentou ligeiras impressões de outras viagens pelo Brasil, acompanhado nestas divagações por suas sobrinhas.


No Cais do desembarque, já em Macaíba, a comitiva foi festivamente recebida pelas autoridades, pelos alunos e o povo em geral que acorreu ao local acompanhando a banda de música municipal. Todos então saíram em passeata para o Grupo Escolar “Auta de Souza”, na frente deste, estavam reunidas todas as escolas do município; Escola Noturna do Centro Macaibense, Escola Paroquial de São Luiz, Escola particular da professora Emília Rodrigues além dos próprios alunos do “Auta de Souza”, que entoaram o Hino a Bandeira.


No interior do Grupo Escolar, o Dr. Olveira Lima e família receberam os cumprimentos dos chefes políticos e oligarcas locais; Cel. Manuel Maurício Freire, Cel. Prudente Alecrim e o Presidente da Intendência Cel. João Soares da Fonseca Lima. Estavam presentes também o professores Bartolomeu Fagundes, Arcelina Fernandes e Celina Navarro do “Auta de Souza” e a professora Emília Rodrigues. O Dr. Virgílio Dantas, juiz de Direito, João Meireles, Promotor Público e Antidio Guerra, diretor do Campo de Demonstração de Jundiaí, fechavam o grupo recepcionista local que ofereceu uma farta mesa de café e doces aos visitantes.


Após o café, o Dr. Oliveira Lima falando de improviso, se disse encantado com uma cidade tão arborizada. Esse fato, anos depois, despertou uma bela crônica de Octacílio Alecrim intitulada “As arvores de Macaíba”, na qual descreve a impressão de Oliveira Lima sobre as árvores da cidade.


Em seguida os visitantes na companhia do Cel. Manuel Mauricio Freire, que naquele ano estava respondendo como superintendente da construção da famosa Estrada de Rodagem do Seridó, do engenheiro da obra Eduardo Parisot, do Dr. Virgilio Dantas e os professores Bartolomeu Fagundes e Celina Navarro, divididos em quatro fords se dirigiram ao interior de Macaíba, mais precisamente ao povoado de Panelas – atualmente cidade de Bom Jesus – onde ficava a propriedade do major Lydio Marinho de Oliveira, denominada Santa Rita e aonde os convivas foram assistir a uma vaquejada!!


Logo na entrada do povoado foram todos recebidos por oitenta vaqueiros, trajados com suas vestes características de couro. Oliveira Lima ficou impressionado com a destreza dos vaqueiros locais na derrubada das rezes e comentou com o Henrique Castriciano sobre a diferença do nosso “matuto”, caracterizado pelas observações do ministro, como fortes e ativos, muito diferente do “jeca tatu” indolente e poltrão que a literatura em voga no período queria generalizar como sendo o tipo de brasileiro dos sertões.


Ainda durante as observações ocorridas na vaquejada, Oliveira Lima chamou a atenção de todos para a linguagem do “matuto” que não se diferenciava para a do homem da cidade em muitos aspectos.


Terminada a vaquejada, todos voltaram aos carros e seguiram primeiro a Caiada (hoje Eloy de Souza) e depois a Serra Caiada atendendo aos apelos das jovens sobrinhas do ministro e das alunas da Escola Domestica. Durante o percurso o Cel. Mauricio Freire o Dr. Parisot apresentavam aos viajantes a magnífica obra do governo do Estado que era a Estrada de Rodagem do Seridó e suas excelentes condições técnicas.


Oliveira Lima deixou então o observador literato de lado e resistiu de político, afagando os egos do Cel. Neco Freire e do engenheiro da obra, afirmou que: “andasse de automóvel na estrada de Macaíba com a mesma comodidade e conforto com que se anda em avenidas asfaltadas”.


No regresso à fazenda Santa Rita de Lydio Marinho, foi servido debaixo de uma mangueira o almoço organizado por Alcides Varela. Em seguida rumaram todos à Princesa do Jundiaí onde descansaram no “Auta de Souza” enquanto a banda de música deleitava a todos com os acordes de seus componentes. Depois do que saíram para o embarque no Porto do Barco e rumaram a Natal onde chegaram as 19 horas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Perfis - Estefânia Mangabeira

Já descrevi neste blog, através de pequenas biografias, a vida de duas poetisas macaibenses – Auta de Souza e Maria de Lourdes Cid. Para completar uma tríade, trago a lume a história de Estefânia Alzira Mangabeira de Barros, educadora militante e poetisa apaixonada.

Nascida em Macaíba, no dia 16 de Janeiro de 1894. Era filha de João Paulino de Azevedo Mangabeira e de Maria Amélia Mangabeira. Iniciou os seus estudos em Macaíba. A família mudou para Belém, no Pará, onde ela formou-se pela Escola Normal de Belém, passando logo em seguida a residir em Currais Novos, no Seridó Potiguar.

Passou então a ensinar no Grupo Escolar Capitão-mor Galvão e posteriormente introduziu o antigo MOBRAL. Em Macaíba casou com Francisco Paulino de Barros e tiveram cinco filhos: Moysés, Arão (falecido criança), Niafran (falecido criança), Myriam Niafran, Talita Tarcila Paulino de Barros. Residiu a poetisa em Natal, Currais Novos, Campina Grande (PB) de 1928 a 1944, João Pessoa e, finalmente, em Belo Horizonte (MG).

Literalmente usava os pseudônimos: “Humilde Brasileira” e “Alma Potiguar”. Colaborou na revista A Jangada, de Fortaleza e fez parte da Casa de Juvenal Galeno, de Fortaleza no Ceará, e da “Ala Feminina de Campina Grande”, Paraíba. Pertencia à primeira Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte.

Como poetisa sacra, versificou inúmeros temas bíblicos, tendo escrito para as revistas Voz Missionária, SAF em Revista e para os jornais Rosa de Saron e Batista Mineiro.

Como escritora publicou os livros "Lírios Roxos", "Vagalume", “Natimorta”, em 1928, pela gráfica Pantuária, sendo a primeira mulher a publicar livro em Campina Grande. Deixou inéditos: “Luzes Pálidas”, “Flagelos”. A poetisa Estefânia Mangabeira faleceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, a 27 de agosto de 1974.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Paisagens do RN - Engenho Pituaçú

Vista de parte da antiga senzala, da casa grande e do bueiro do engenho. (Foto Anderson Tavares, agosto de 2008)

Alpendre da casa grande do engenho Pituaçú. (Foto Anderson Tavares)

Pátio fronteiriço ao "Pituaçú", vendo-se ao fundo o engenho. (Foto Anderson Tavares)

Em 1858 surgiram diversos engenhos nas imediações da vila de Canguaretama. Um dos quais foi o engenho Pituaçú (Camarão grande em Tupi).


O Engenho Pituaçú foi fundado pelo português Manoel Antônio de Medeiros e vendido a família Bezerra que por sua vez repassou o a propriedade ao negociante do Recife Parente Vianna. Em 1919 as terras foram adquiridas por Manoel Luiz Gomes por 100:000$000 (cem contos de reis). Neste período, as terras do engenho ocupavam cerca de 1.200 hectares, havendo então uma grande mata virgem.


O proprietário passou a administração do engenho para seu genro Joaquim Gomes Sobrinho casado com Ana Augusta Gomes. O casal construiu a casa grande entre os anos de 1928-29. O prédio foi erguido em frente ao engenho, no cimo de um pequeno morro, onde foi plantado um pomar.


A casa grande do Pituaçú mantém as mesmas características de sua fabrica original. Ostenta fachadas rebuscadas, com a cobertura arrematada por cornija, a platibanda com ornatos de massa. A fachada principal da casa grande, emoldurada por cunhais e cornija, apresenta no térreo duas janelas centrais, ladeadas por outras duas janelas mais largas, sendo todas elas de madeira pintada, assentadas em vãos de vergas retas com cercaduras de massa.


Ao nível do pavimento superior existe o mesmo numero de janelas, que obedecem disposição idêntica à do térreo, estando as duas janelas centrais assentadas em vãos de arcos plenos, e as laterais em vãos de arcos abatidos. Todas as esquadrias são de madeira e vidro, possuindo cercaduras de massa.


O acesso principal a casa é feito através do alpendre lateral esquerdo, cuja cobertura acha-se apoiada em colunas de madeira. A escada que conduz ao primeiro andar, que ocupa parte da casa é de madeira e tem a forma helicoidal. Convém destacar ainda, que abaixo da área ocupada pelo sobrado, encontra-se a sala de visitas, na qual se destaca os retratos do Cel. Quincas e de sua esposa Ana. Todo o piso do casarão é de tijoleira.


A casa grande do Pituaçú guarda inúmeros atrativos, dentre os quais ainda podemos destacar: um antigo berço de balanço, confeccionado de madeira torneada e com fundo de palhinha, apresentando mais um suporte para colocação de cortinado em forma de cegonha e o velho cabriolé (espécie de charrete) que conduzia os moradores da casa à cidade de Canguaretama.

O Engenho Pituaçú é um dos raros no Estado do Rio Grande do Norte, onde ainda é possível admirar a paisagem bucólica aliada às construções históricas como a casa grande, o engenho e o antigo boeiro.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A lápide de Jerônimo de Albuquerque Maranhão

Forte dos Reis Magos na visão de Frans Post ao tempo de Jerônimo de Albuquerque.
Aspecto do Engenho Cunhaú em desenho de Frans Post.

Lápide do Fundador Jerônimo de Albuquerque Maranhão. (Foto Anderson Tavares, 2008)


Jerônimo de Albuquerque, que posteriormente acrescentou o agnome Maranhão, nasceu em 1548 na Vila de Olinda, era o terceiro e último filho varão do casal Jerônimo de Albuquerque e Maria do Espírito Santo Arcoverde. Esta, filha do chefe tabajara Arco-Verde. Segundo o genealogista Borges da Fonseca, “viveu Jerônimo d’Albuquerque na pátria com a honra própria do seu nascimento”.



Jerônimo teve destacada atuação nos fatos relacionados com a reconquista da Capitânia do Rio Grande aos franceses, como capitão de uma companhia trazida em dezembro de 1597 ao Potengi, pelo capitão-mor de Pernambuco Manuel Mascarenhas Homem.



Filho de índia, Jerônimo de Albuquerque sabia se entender com sua gente. Logo que toma posse do Forte dos Reis Magos, entra em contato com um dos principais chefes indígenas locais – Poti – com o objetivo de captar as simpatias dos demais. Obtida a pacificação dos índios, Jerônimo se sentiu seguro para demarcar em terreno firme e elevado, o sitio da nova cidade, na margem direita do rio Potengi.



Aos 9 de janeiro de 1603, Jerônimo foi nomeado Capitão-mor do Rio Grande, em substituição a João Rodrigues Colaço, que o antecedera no cargo. Concedeu-lhe a mercê D. Filipe II de Castela, que então acumulava a coroa de Portugal.


Jerônimo de Albuquerque assumiu o governo do Rio Grande no dia 7 de julho de 1603 e já no ano seguinte, a 2 de maio, concedeu uma sesmaria de 5.000 braças em quadra, aos seus filhos Matias e Antônio de Albuquerque, em cujas terras logo foi instalado um engenho de cana, o famoso engenho Cunhaú, que se tornaria o mais importante núcleo econômico da Capitania.


Jerônimo foi nomeado, em 17 de junho de 1614, capitão da conquista e descobrimento do Maranhão, região que então se achava sob o domínio dos franceses. Em 19 de novembro de 1614Jerônimo alcançou uma decisiva vitória sobre os franceses comandados por La Ravardiere, no chamado combate de Guaxenduba.


Oito dias depois, ainda sobe a alegria da vitória alcançada, Jerônimo acrescentou ao seu nome o apelido “Maranhão”, conforme consta de sua assinatura aposta em documento de 27 de novembro. O genealogista Borges da Fonseca, na sua Nobiliarquia Pernambucana, ensina que a aposição do topônimo ao nome primitivo de Jerônimo de Albuquerque, foi uma mercê do Rei D. Filipe II, por remuneração do serviço da conquista do território maranhense, gesto “de que muito se prezaram seus descendentes”.

Jerônimo de Albuquerque Maranhão, por sua condição de Fidalgo Real, casou com d. Catarina Feijó, filha de Antônio Pinheiro Feijó e Leonor Guardes. Jerônimo de Albuquerque Maranhão foi o primeiro capitão-mor do Maranhão, de 1616 a 1618, cargo em que foi substituído, por sua morte, pelo filho Antônio de Albuquerque Maranhão.



O Barão do Rio Branco afirma em seu livro “Efemérides Brasileiras” que Jerônimo de Albuquerque faleceu no dia 11 de fevereiro de 1618 em São Luis do Maranhão. Já Borges da Fonseca, em seu livro já citado destaca que o fundador de Natal faleceu no seu engenho Cunhaú. Com quem está a razão?



Na tradicional Capela do Engenho Cunhaú, encontra-se uma antiga pedra tumular, já bastante desgastada pelo atrito ocasionado pelos pés dos freqüentadores daquele templo, no decorrer de quase quatro séculos de presença religiosa.



A placa mede cerca de 1,24 x 0,69m, a pedra encontra-se posicionada no piso da capela, ao pé do retábulo. O historiador Olavo Medeiros conseguiu, ao cabo de muito esforço decifrar a inscrição lapidada: QUIJA O DADO JNIMODE ALBUQ.MARANHÃO. (AQUI JAZ O FUNDADOR JERÔNIMO DE ALBUQUERQUE MARANHÃO).


Atraves da leitura do texto contido na pedra tumular, fica definitivamente esclarecido o fato de ter falecido e sido sepultado em Cunhaú, o velho Capitão-Mor, fundador da Cidade do Natal Jerônimo de Albuquerque Maranhão, figura de destaque que marcou a história nordestina.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O Engenho Cunhaú

Cel. André de Albuquerque Maranhão, Senhor Hereditário da Casa de Cunhaú. Chefe da Revolução de 1817 no RN. Fonte: pintura de Evaldo, acervo do IHGRN.

Com a introdução do regime das Capitanias hereditárias no Brasil, foram concedidas em 8 de março de 1535, cem léguas de terra ao longo do mar a João de Barros e Aires da Cunha. O atual Estado do Rio Grande do Norte achava-se incluída naquela Capitania de João de Barros e Aires da Cunha, cuja extensão estendia-se da Baia da Traição, na Paraíba, à enseada de Mucuripe, no Ceará.

Em 1516, os franceses já haviam estabelecido um processo de trocas comerciais com os indígenas Potiguares, habitantes do litoral norte-rio-grandense, o que ensejou a vinda do Capitão-mor de Pernambuco, Manuel Mascarenhas Homem, Capitão-mor da Conquista do Rio Grande. Acompanhava Mascarenhas Homem os irmãos Antônio, Jorge e Jerônimo de Albuquerque, figurava este último como comandante de 3 companhias de infantaria e uma de cavalaria.

Com a ação desenvolvida por Jerônimo de Albuquerque junto ao índios Potiguares pôde ser restabelecido o poder português na Capitania do Rio Grande, ocorrendo em seguida a expulsão dos franceses e a demarcação do sitio onde ocorreu a fundação da atual Cidade do Natal em 25 de dezembro de 1599.

Jerônimo de Albuquerque (que posteriormente acrescentaria o agnome Maranhão por mercê real) assumiu o cargo de Capitão da Fortaleza do Rio Grande em 7 de julho de 1603. No ano seguinte, concedeu ele aos filhos infantes Antônio e Matias de Albuquerque, cinco mil braças de terra em quadra (12.100 hectares) na várzea do rio Cunhaú, no Rio Grande do Norte. Logo surgiria o primeiro engenho de açúcar da capitania, o tradicional engenho Cunhaú, cenário de tantas páginas de nossa história.



Cunhaú tornou-se o principal núcleo econômico da Capitania. Em 1630 o Engenho Cunhaú produzia de 6 a 7.000 arrobas (88 a 103 toneladas) de açúcar, ali morando 60 ou 70 homens com suas respectivas famílias. Durante o período do domínio holandês, Cunhaú foi confiscado, passando às mãos de diversos proprietários. Após a expulsão dos holandeses, o engenho reverteu ao domínio da família Albuquerque Maranhão, com ela permanecendo até a terceira década do século passado, constituindo-se em uma verdadeira Casa Hereditária através das gerações varonis que ali sucederam.



A capela edificada por Jerônimo de Albuquerque, quando da fundação do engenho em 1604, foi retratada pelo artista flamengo Frans Post, constando do famoso livro Barléu, que trata do período em que o Conde João Maurício de Nassau-Siegen governou o Brasil Holandês.



Certamente, o episódio que marcou sobremaneira a vida social da capela de Nossa Senhora das Candeias do Cunhaú, foi o massacre ali praticado na manhã de 16 de julho de 1645, durante a conquista dos Holandeses. Tapuias Janduis e Potiguares liderados pelo alemão Jacob Rabbi, em número de 500 indivíduos, perpetraram uma chacina na capela, por ocasião de uma missa cujo celebrante era o padre André de Soveral, ancião de 73 anos de idade. O número de vitimas do aludido morticínio varia conforme os diversos cronistas que o descreveram: entre 35 e 80 inclusive padre Soveral. A matança no engenho marcou o inicio da insurreição pernambucana contra a presença holandesa, somente posta encerrada em janeiro de 1654.



O mais ilustre filho de Cunhaú foi André de Albuquerque Maranhão, segundo do nome, nascido naquele engenho no ano de 1773. Foram seus pais o Cel. André de Albuquerque Maranhão, 5º senhor hereditário de Cunhaú e dona Antônia Josefa do Espirito Santo Ribeiro. Em 1810 o engenho Cunhaú foi visitado pelo inglês Henry Koster, que dedicou várias páginas do seu livro Viagens ao Brasil àquele engenho e ao proprietário, o Cel. André de Albuquerque.


Andrezinho do Cunhaú, como era conhecido aquele fidalgo, presidiu a Revolução Republicana de 1817, na Capitania do Rio Grande, instalada em Natal no dia 28 de março do mesmo ano. André foi deposto por uma reação de monarquistas devotos, sendo ferido na virilha com um golpe de espada, o que ocasionou a sua morte no dia 25 de abril de 1817, preso na pior sela da Fortaleza dos Reis Magos, em Natal. Em 1995, durante restauração da antiga Sé de Natal foram encontrados os seus despojos, sendo providenciado um túmulo para o mártir de 1817.