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terça-feira, 6 de abril de 2010

Solar Ferreiro Torto

Solar Ferreiro Torto. (foto: Itaércio Porpino)

Em 1847, o Cel. Estevão Moura, havia herdado o engenho Ferreiro Torto e naquele mesmo ano, demoliu a antiga construção térrea do sogro e fez erguer com base em planta de sua autoria, o confortável e elegante palacete, moldado em estilo colonial português, uma preferência do construtor utilizado em outros prédios que lhe pertenciam, como o bonito solar Caxangá, antiga fazenda Barra.


Trata-se de um prédio monumental, com linhas sóbrias e elegantes. Apresenta partido de planta quadrangular, desenvolvido em dois pavimentos. Possui uma bela composição de cobertura em varias águas, cujos beirais são arrematados por frisos e cornijas.



Ao tempo em que foi erguido era provido de água encanada, esgotos, varandas, forros, vidraças e um santuário, tendo os dormitórios no segundo pavimento, cujo conforto não tinha rival nem nos edifícios da capital da província.



Belíssimo jardim em estilo francês foi construído na frente do casarão, onde outrora foi o patamar da casa ao tempo da invasão holandesa. No inicio do jardim, ficava o pelourinho, temor dos escravos quando dos malfeitos domésticos.



O pelourinho foi retirado definitivamente da frente da casa depois da morte de d. Maria Rosa do Rego Barros de Moura, senhora do engenho, cujas crueldades cometidas contra os escravos viraram lendas que extrapolaram as fronteiras estaduais.



O solar Ferreiro Torto, como residência senhorial possuía muitos esconderijos, sobre os quais depõe o escritor José Moreira Brandão Castelo Branco Sobrinho, bisneto do cel. Estevão: “Não se deve olvidar que no palacete, havia esconderijos; um na parte posterior do sobrado, disseminado por uma janela apenas desenhada pela parte externa, com relevos e pinturas indispensáveis a guardar a harmonia das esquadrias, e outro no forro da escada, que conduzia ao segundo pavimento, disfarçados de tal forma que pessoas estranhas não conseguiriam descobri-los”.




A propósito, conta-se que devido a vários processos a que submeteram o dito coronel Estevão por injunções políticas, foi ele procurado por agentes policiais ou judiciários em sua residência de ferreiro Torto, e que apesar de se mostrar aos mesmos numa das sacadas do sobrado e facultando-lhes a entrada, os oficiais de justiça por mais que o procurassem nas varias dependências da casa, não o encontravam.



Além desses esconderijos, havia o famoso túnel que ligava o casarão ao porto do engenho, e que foi construído pelo coronel Joaquim José do Rego Barros, participe dos tempos atribulados da revolução de 1817.



Na posse de Estevão Moura, o engenho Ferreiro Torto vislumbrou tertúlias memoráveis, visitas ilustres de presidentes da província e dignitários do império, com banquetes seguidos de bailes memoráveis. Amigo da boa mesa, a província toda conhecia o modo fidalgo com que o coronel tratava seus hospedes, fidalguia herdada por todos os seus descendentes diretos, sobre os quais, assevera mestre Câmara Cascudo: “todos os seus descendentes, foram fieis ao signo da hospitalidade generosa, completa, ampla, inimitável”.



Com o falecimento do Cel. Estevão Moura, o engenho Ferreiro Torto coube no espólio para a sua filha mais nova d. Isabel Cândida de Moura Chaves, casada com o Dr. Francisco Clementino de Vasconcelos Chaves, pais do jurista Dr. João Chaves, nascido na residência em 1875.


D. Isabel Cândida vendeu a propriedade em 1900 para sua sobrinha d. Maria Suzana Teixeira de Moura, que na década de 1920 transferiu o antigo engenho para o senhor Francisco Coelho e deste para o senhor Bruno Pereira que se desfez da fazenda na década de 30, vendendo o imóvel para a Amélia Duarte Machado, que desde então manteve moradores na fazenda até que em 1978 as terras foram desapropriadas pela prefeitura de Macaíba, na gestão Valério Mesquita, como patrimônio histórico, sendo transformado em museu de Arte Sacra, mantido pela Fundação José Augusto que tombou e restaurou o antigo palacete colonial.



Depois de funcionar como sede da prefeitura da Macaíba entre os anos de 1983 a 1989, foi transformado em museu municipal na gestão Odiléia Mércia. Posteriormente fechado, foi reaberto como museu regional na gestão Mônica Nóbrega Dantas. Novamente fechado e após sofrer assaltos e depredações, foi reinaugurado como Complexo Turístico e Cultural Solar Ferreiro Torto, em abril de 2003, durante a gestão do prefeito Fernando Cunha Lima Bezerra, apresentando uma coleção de fotografias antigas da cidade da Macaíba e de seus filhos que se destacaram nos mais variados segmentos sociais. As fotos foram doações de Rayanne Magalhães (descendente do Cel. Estevão), do historiador Anderson Tavares e do memorialista José Inácio de Souza Neto que dá nome a uma das salas de exposição.



No projeto original do complexo constava ainda, duas trilhas ecológicas e um passeio de barco pelo rio Jundiaí, partindo do antigo porto de Ferreiro Torto. O lugar é propicio para aliar história e meio ambiente em um terreno de seis hectares coberto de resquícios de Mata Atlântica, pequena faixa de terra que outrora abrangia municípios inteiros do Rio Grande do Norte, visto ter sido o engenho Ferreiro Torto oriundo das antigas sesmarias coloniais.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Paisagens Potyguares - A casa do Barão de Ceará-Mirim

Solar São Francisco - antiga sede do engenho do mesmo nome. (foto: Gibson Machado)

Barão do Ceará-Mirim
Manoel Varela do Nascimento pertenceu ao seleto grupo de potiguares distinguidos como nobres pelo Imperador D. Pedro II. Já havia presidido a câmara municipal de Extremoz, nos anos de 1829-32 e 1837-40, em 1852 recebia com honras o comando superior da Guarda Nacional dos municípios de Natal, São Gonçalo do Amarante, Extremoz e Touros; foi deputado provincial entre 1868-69 e, durante este mandando, 3º Vice-Presidente da Província do RN.

Senhor de engenho vitorioso no Ceará-Mirim, onde nasceu no natal de 1802, mais precisamente no sítio Veríssimo, foi um dos primeiros proprietários de engenho a utilizar cilindros horizontais, na moagem de cana, em substituição aos cilindros verticais, comumente utilizados. Foi o divulgador da cana de “cayenne” – nordestinizada como caina.


Contudo, o que destacava Cel. Manoel Varela do Nascimento para o recebimento de um título nobiliárquico era o seu devotamento à causa da instrução pública. D. Pedro II foi um governante constantemente preocupado com a educação e tendo em vista os relevantes serviços prestados por Manoel Varela à educação em seu município, fato que resultaria na construção de um estabelecimento escola em 05 de novembro de 1878, teve a distinção de ser o primeiro potiguar a ser agraciado com o título de barão por decreto imperial de 22 de junho de 1874. Ceará-Mirim, sua terra, sua urbe, seu mundo foi o nome que desejou acrescer ao baronato, passando Manoel Varela do Nascimento a ser conhecido como Barão de Ceará-Mirim.


O Barão do Ceará-Mirim foi uma das grandes figuras dominadoras e carismáticas de outrora. E, não obstante sua vida pública movimentada, seu status de nobre brasileiro, permanece um desconhecido personagem de nossa história. Faleceu no dia 01 de março de 1881 e a baronesa Bernarda Varela Dantas no dia 16 de julho de 1890, tendo nascido em 17 de junho de 1821.Manoel Varela do Nascimento pertenceu ao seleto grupo de potiguares distinguidos como nobres pelo Imperador D. Pedro II. Já havia presidido a câmara municipal de Extremoz, nos anos de 1829-32 e 1837-40, em 1852 recebia com honras o comando superior da Guarda Nacional dos municípios de Natal, São Gonçalo do Amarante, Extremoz e Touros; foi deputado provincial entre 1868-69 e, durante este mandando, 3º Vice-Presidente da Província do RN.


Senhor de engenho vitorioso no Ceará-Mirim, onde nasceu no natal de 1802, mais precisamente no sítio Veríssimo, foi um dos primeiros proprietários de engenho a utilizar cilindros horizontais, na moagem de cana, em substituição aos cilindros verticais, comumente utilizados. Foi o divulgador da cana de “cayenne” – nordestinizada como caina.


Contudo, o que destacava Cel. Manoel Varela do Nascimento para o recebimento de um título nobiliárquico era o seu devotamento à causa da instrução pública. D. Pedro II foi um governante constantemente preocupado com a educação e tendo em vista os relevantes serviços prestados por Manoel Varela à educação em seu município, fato que resultaria na construção de um estabelecimento escola em 05 de novembro de 1878, teve a distinção de ser o primeiro potiguar a ser agraciado com o título de barão por decreto imperial de 22 de junho de 1874. Ceará-Mirim, sua terra, sua urbe, seu mundo foi o nome que desejou acrescer ao baronato, passando Manoel Varela do Nascimento a ser conhecido como Barão de Ceará-Mirim.


O Barão do Ceará-Mirim foi uma das grandes figuras dominadoras e carismáticas de outrora. E, não obstante sua vida pública movimentada, seu status de nobre brasileiro, permanece um desconhecido personagem de nossa história. Faleceu no dia 01 de março de 1881 e a baronesa Bernarda Varela Dantas no dia 16 de julho de 1890, tendo nascido em 17 de junho de 1821.

Jaigo pérpetuo dos Barões de Ceará-Mirim

Aspecto da capela do antigo engenho São Francisco, tendo à frente o cemitério particular.

Das diversas propriedades acumuladas pelo barão, destacamos a que lhe srviu de ultima residência – o engenho São Francisco, atualmente convertido em usina e pertencente ao Sr. Geraldo José Ferreira de Melo.

Construção de singular importância para a história política e social do Rio Grande do Norte, a casa grande do antigo engenho São Francisco, segundo a arquiteta Jeanne Nesi, foi desenvolvida em dois pavimentos, apresentando planta quadrangular, com coberturas de quatro águas, beiral corrido com extremidades em “caudas de andorinha”, arrematado por cimalha.

A fachada principal da casa possui uma porta de acesso, ladeada por seis janelas, superpostas por sete janelas rasgadas, guarnecidas por uma única grade de ferro. Todos os vãos são de arcos abatidos, com cercaduras de massa. Na época do barão, ostentava o belo revestimento de cerâmica do Porto, hoje desaparecido.

O piso térreo do prédio é cimentado, sendo conservado o assoalho de tabuado corrido, no pavimento superior. O forro tabuado do térreo permanece, e, no superior, foi colocado gesso. Na parede da sala de honra da antiga residência, repousavam serenos os retratos pintados por um Frances, do Barão e da Baronesa, hoje estão recolhidos ao belo solar do engenho Nascença, pertencente aos herdeiros do descendente e guardião Roberto Varela (*1928 +2006), que me apresentou as imagens durante visita àquele engenho.

Completando a tríade casa-grande e engenho a propriedade dispõe da antiga capela de Nossa Senhora da Conceição, no cemitério da qual repousam os restos mortais dos barões imperiais e outros membros da família.

A casa-grande está razoavelmente conservada, tendo sofrido algumas modificações que a adequaram ao seu atual uso. É preciso que seja tombada pela Fundação José Augusto, para que seja resguardado da especulação e obtenha o reconhecimento oficial de sua importância histórica, artística e sentimental para o vale do Ceará-Mirim e o Rio Grande do Norte.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Paisagens do RN - Engenho Pituaçú

Vista de parte da antiga senzala, da casa grande e do bueiro do engenho. (Foto Anderson Tavares, agosto de 2008)

Alpendre da casa grande do engenho Pituaçú. (Foto Anderson Tavares)

Pátio fronteiriço ao "Pituaçú", vendo-se ao fundo o engenho. (Foto Anderson Tavares)

Em 1858 surgiram diversos engenhos nas imediações da vila de Canguaretama. Um dos quais foi o engenho Pituaçú (Camarão grande em Tupi).


O Engenho Pituaçú foi fundado pelo português Manoel Antônio de Medeiros e vendido a família Bezerra que por sua vez repassou o a propriedade ao negociante do Recife Parente Vianna. Em 1919 as terras foram adquiridas por Manoel Luiz Gomes por 100:000$000 (cem contos de reis). Neste período, as terras do engenho ocupavam cerca de 1.200 hectares, havendo então uma grande mata virgem.


O proprietário passou a administração do engenho para seu genro Joaquim Gomes Sobrinho casado com Ana Augusta Gomes. O casal construiu a casa grande entre os anos de 1928-29. O prédio foi erguido em frente ao engenho, no cimo de um pequeno morro, onde foi plantado um pomar.


A casa grande do Pituaçú mantém as mesmas características de sua fabrica original. Ostenta fachadas rebuscadas, com a cobertura arrematada por cornija, a platibanda com ornatos de massa. A fachada principal da casa grande, emoldurada por cunhais e cornija, apresenta no térreo duas janelas centrais, ladeadas por outras duas janelas mais largas, sendo todas elas de madeira pintada, assentadas em vãos de vergas retas com cercaduras de massa.


Ao nível do pavimento superior existe o mesmo numero de janelas, que obedecem disposição idêntica à do térreo, estando as duas janelas centrais assentadas em vãos de arcos plenos, e as laterais em vãos de arcos abatidos. Todas as esquadrias são de madeira e vidro, possuindo cercaduras de massa.


O acesso principal a casa é feito através do alpendre lateral esquerdo, cuja cobertura acha-se apoiada em colunas de madeira. A escada que conduz ao primeiro andar, que ocupa parte da casa é de madeira e tem a forma helicoidal. Convém destacar ainda, que abaixo da área ocupada pelo sobrado, encontra-se a sala de visitas, na qual se destaca os retratos do Cel. Quincas e de sua esposa Ana. Todo o piso do casarão é de tijoleira.


A casa grande do Pituaçú guarda inúmeros atrativos, dentre os quais ainda podemos destacar: um antigo berço de balanço, confeccionado de madeira torneada e com fundo de palhinha, apresentando mais um suporte para colocação de cortinado em forma de cegonha e o velho cabriolé (espécie de charrete) que conduzia os moradores da casa à cidade de Canguaretama.

O Engenho Pituaçú é um dos raros no Estado do Rio Grande do Norte, onde ainda é possível admirar a paisagem bucólica aliada às construções históricas como a casa grande, o engenho e o antigo boeiro.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O Engenho Cunhaú

Cel. André de Albuquerque Maranhão, Senhor Hereditário da Casa de Cunhaú. Chefe da Revolução de 1817 no RN. Fonte: pintura de Evaldo, acervo do IHGRN.

Com a introdução do regime das Capitanias hereditárias no Brasil, foram concedidas em 8 de março de 1535, cem léguas de terra ao longo do mar a João de Barros e Aires da Cunha. O atual Estado do Rio Grande do Norte achava-se incluída naquela Capitania de João de Barros e Aires da Cunha, cuja extensão estendia-se da Baia da Traição, na Paraíba, à enseada de Mucuripe, no Ceará.

Em 1516, os franceses já haviam estabelecido um processo de trocas comerciais com os indígenas Potiguares, habitantes do litoral norte-rio-grandense, o que ensejou a vinda do Capitão-mor de Pernambuco, Manuel Mascarenhas Homem, Capitão-mor da Conquista do Rio Grande. Acompanhava Mascarenhas Homem os irmãos Antônio, Jorge e Jerônimo de Albuquerque, figurava este último como comandante de 3 companhias de infantaria e uma de cavalaria.

Com a ação desenvolvida por Jerônimo de Albuquerque junto ao índios Potiguares pôde ser restabelecido o poder português na Capitania do Rio Grande, ocorrendo em seguida a expulsão dos franceses e a demarcação do sitio onde ocorreu a fundação da atual Cidade do Natal em 25 de dezembro de 1599.

Jerônimo de Albuquerque (que posteriormente acrescentaria o agnome Maranhão por mercê real) assumiu o cargo de Capitão da Fortaleza do Rio Grande em 7 de julho de 1603. No ano seguinte, concedeu ele aos filhos infantes Antônio e Matias de Albuquerque, cinco mil braças de terra em quadra (12.100 hectares) na várzea do rio Cunhaú, no Rio Grande do Norte. Logo surgiria o primeiro engenho de açúcar da capitania, o tradicional engenho Cunhaú, cenário de tantas páginas de nossa história.



Cunhaú tornou-se o principal núcleo econômico da Capitania. Em 1630 o Engenho Cunhaú produzia de 6 a 7.000 arrobas (88 a 103 toneladas) de açúcar, ali morando 60 ou 70 homens com suas respectivas famílias. Durante o período do domínio holandês, Cunhaú foi confiscado, passando às mãos de diversos proprietários. Após a expulsão dos holandeses, o engenho reverteu ao domínio da família Albuquerque Maranhão, com ela permanecendo até a terceira década do século passado, constituindo-se em uma verdadeira Casa Hereditária através das gerações varonis que ali sucederam.



A capela edificada por Jerônimo de Albuquerque, quando da fundação do engenho em 1604, foi retratada pelo artista flamengo Frans Post, constando do famoso livro Barléu, que trata do período em que o Conde João Maurício de Nassau-Siegen governou o Brasil Holandês.



Certamente, o episódio que marcou sobremaneira a vida social da capela de Nossa Senhora das Candeias do Cunhaú, foi o massacre ali praticado na manhã de 16 de julho de 1645, durante a conquista dos Holandeses. Tapuias Janduis e Potiguares liderados pelo alemão Jacob Rabbi, em número de 500 indivíduos, perpetraram uma chacina na capela, por ocasião de uma missa cujo celebrante era o padre André de Soveral, ancião de 73 anos de idade. O número de vitimas do aludido morticínio varia conforme os diversos cronistas que o descreveram: entre 35 e 80 inclusive padre Soveral. A matança no engenho marcou o inicio da insurreição pernambucana contra a presença holandesa, somente posta encerrada em janeiro de 1654.



O mais ilustre filho de Cunhaú foi André de Albuquerque Maranhão, segundo do nome, nascido naquele engenho no ano de 1773. Foram seus pais o Cel. André de Albuquerque Maranhão, 5º senhor hereditário de Cunhaú e dona Antônia Josefa do Espirito Santo Ribeiro. Em 1810 o engenho Cunhaú foi visitado pelo inglês Henry Koster, que dedicou várias páginas do seu livro Viagens ao Brasil àquele engenho e ao proprietário, o Cel. André de Albuquerque.


Andrezinho do Cunhaú, como era conhecido aquele fidalgo, presidiu a Revolução Republicana de 1817, na Capitania do Rio Grande, instalada em Natal no dia 28 de março do mesmo ano. André foi deposto por uma reação de monarquistas devotos, sendo ferido na virilha com um golpe de espada, o que ocasionou a sua morte no dia 25 de abril de 1817, preso na pior sela da Fortaleza dos Reis Magos, em Natal. Em 1995, durante restauração da antiga Sé de Natal foram encontrados os seus despojos, sendo providenciado um túmulo para o mártir de 1817.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Solar da Madalena - antiga Villa Soledade




Edificado entre os anos de 1915-17, pelo mestre Carneiro, com base na planta do arquiteto Giacómo Palumbo, a Vila Soledade era a residência do cel. Manoel Mauricio Freire, chefe Político do município por quarenta anos. Em 2003, quando conheci seu neto Dr. Darce Freire Dantas de Araújo, este me relatou o verdadeiro nome da propriedade, lembrando que quando ainda era uma criança, nos idos de 1920, os jardins da casa ostentavam dois grandes "V" e "S" artísticamente desenhados com flores e que indicavam à moda de então de intitular as grandes casas de Villas - em substituição ao velho costume imperial de chamar de Solar essas casas.




O atual casarão substituiu a antiga sede da fazenda Canavial que pertencia ao major Manoel Joaquim Freire, pai de Maurício. Após a construção do solar, o cel. Neco Freire e sua esposa D. Constança, reuniam todos os anos as sociedades Natalense e Macaíbense para a festa da colheita da jabuticaba, produzida pelo sítio. Esses eventos contavam com a presença dos governadores daquela época, o que ratifica o poder político de Manoel Freire.




Fazia parte da propriedade, o antigo porto da Madalena que servia de escoadouro da produção do açucar "Moreninho", da refinação de Neco Freire, bem como das pedras proveninetes da pedreira que o coronel possuia e que calçaram Natal no tempo dos Albuquerque Maranhão, restando, na atualidade, a rua que separa o Solar Bela Vista da casa de Câmara Cascudo, pavimentadae com as antigas pedras.




Com o falecimento de Manoel Maurício Freire, a propriedade ficou para sua neta Maria Crinaura, filha de Isabel Freire e Estevam Alves, que em 1955 vendeu ao comerciante Aguinaldo Ferreira da Silva.




Na década de 80 seu filho Jansem Leiros, restaurou o solar e seus jardins, a partir daí passou a ser conhecido por “Solar da Madalena” em alusão a um antigo porto localizado nas proximidades.



O belo solar da Madalena foi tombado pelo patrimônio histórico do estado em 29 de julho de 2002 e encontra-se em razoável estado de conservação, mantendo sua imponência e fazendo lembrar o fausto em que viviam as famílias abastardas no período áureo do município.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Solar Caxangá - Instituto Pró Memória de Macaíba

Em 1850, o Coronel da Guarda Nacional Estevão José Barbosa de Moura (1810-1891), deputado provincial, presidente da Província do RN por três vezes, construiu a primeira ponte sobre o Rio Jundiaí e abriu a estrada Macaíba / Natal, via Mangabeira, tudo por conta própria. Terminou a contrução de um casarão moldado em estilo Colonial Português, para sede da sua Fazenda Barra (primeira denominação de Caxangá).

Fato é que, a Câmara Municipal de São Gonçalo do Amarante, em sessão do dia 20 de fevereiro de 1850, tomou conhecimento da representação do mesmo Coronel Estevão, ao presidente da província, contra seu vizinho da fazenda Coité (hoje Macaíba), Capitão Francisco Pedro Bandeira de Melo, o qual possuia sua casa em lugar central no Largo das Cinco Bocas; onde atualmente uma loja de móveis ocupa o espaço. É que o capitão estreitara a estrada que desce para o porto de Coité. Em 28 de fevereiro de 1850, a Câmara, tendo em vista a informação do fiscal, ordenou que Bandeira de Melo recuasse a cerca do Coité.

Aos 09 de outubro de 1852, a filha do Cel. Estevão Moura, D. Ana Joaquina de Moura casou-se em grande festa na capela de Santana do engenho Ferreiro Torto, com o Bacharel José Moreira Brandão Castelo Branco (1828-1895), e recebeu como dote paterno aquela fazenda Barra, na qual instalou-se de 1852 a 1857, nascendo-lhe ali 05 de seus 10 filhos. De 1858 a 1867, a casa ficou fechada por motivo de o Dr. Moreira Brandão ter sido eleito várias vezes deputado provincial, indo a família residir em Natal durante esse tempo.

O solar era ocupado pelos ilutres moradores somente nos fins de semana. Em 1868, a família da D. Ana Joaquina de Moura Brandão, volta em definitivo para fixar residêcia no Casarão do "Largo de São José".

Porém, devido à morte prematura da primeira proprietária D. Ana, aos 25 anos em 1870, o viúvo Dr. Moreira Brandão deixou o Solar repleto de recordações, passando a morar na Capital com os filhos.

O solar mais uma vez fechado, passa agora a velar a imagem desventurada de sua senhora. Aos 04 de dezembro de 1881, o Cel. Estevão Moura, já septuagenário, casou-se pela 2° vez com D. Generosa Antônia de Lima em cerimônia oficiada pelo padre João Maria em oratório privado da fazenda Barra, onde o casal passa a residir; sem as grandes recepções de outrora que fizeram do coronel o grande anfitrião do estado.

Dando um aspecto sombrio à velha morada, em janeiro de 1891 faleceu o coronel Estevão José de Moura, aos 81 anos. Sua esposa e filho, nascido em 1890, permaneceram na fazenda até 1895, ano em que venderam a propriedade ao senhor Lourenço José Correia, agricultor de São Gonçalo.

Através de uma cópia da escritura de venda da fazenda Barra, datada de 3 de maio de 1895, pertencente à senhora Rayanne Magalhães, descendente de Estevão Moura, tomamos conhecimento das dimensões do sítio: “limitando-se o fundo do sítio para o sul com a rua Luís Fernandes, para Norte com o patrimônio de São José, a partir da Casa de José Expedito à casa de Targino de tal, para o Nordeste com terras de Morada de Joaquim Manuel T. de Moura e a partir da casa do referido Targino à Cachoeira Cunha – Ary passando a linha entre as casas de Francisca Maria da Conceição e Claudino Matias do Nascimento pelo poente com a rua Visconde do Rio Branco”. Ao todo 360 hectares, quase dois terços da atual sede Macaibense.

O novo proprietário passou a cultivar as terras da fazenda, mas desativou as antigas senzalas que ficavam perto de uma cacimba ainda hoje existente. Todavia, como Lourenço Correia não tinha pouso certo, em 1897 vendeu a propriedade ao coronel Afonso Saraiva de Albuquerque Maranhão (1853-1924), procedente de Palmeira dos Índios, Alagoas.

Em 1900, desgostoso com a política local, o coronel Afonso Saraiva doou a fazenda ao major Antônio de Andrade Lima, seu sobrinho, recolhendo-se ao seu recém-construído solar da Avenida Junqueira Aires, em Natal, onde mais tarde moraria o escritor Luís da Câmara Cascudo.

O major Antônio de Andrade Lima (1879-1950) era sobrinho legítimo da esposa de Afonso Saraiva, dona Apolônia Viana (1862-1911) irmã de dona Marcionila Viana de Andrade Lima(1854-1896), mãe Antônio Andrade. O major Andrade casou em junho de 1901 com dona Maria Segunda de Andrade Lima (1878-1978), e passaram a residir no solar, visto que a antiga casa do major, localizada na Rua João Pessoa, foi transformada na fábrica de Cigarros XV de Novembro. O local, hoje, é um restaurante.

O casal Andrade Lima organizaram saraus que marcaram época na vida da cidade. Otacílio Alecrim (1906-1968), escritor macaibense, tomou parte em uma dessas festas e relata, em seu livro Província Submersa, nestes termos: “E o piano agachado a um canto do salão, parecia um cágado de ébano a tocar do-ré-mi-fá-sol-lá...” E continua: “Na residência do major Andrade, situada em recuo no começo da ladeira do barro vermelho, teve com sua filha Consuelo (...) minhas primeiras tertúlias literárias. E assinala os autores preferidos na leitura da Casa: José de Alencar, Machado de Assis, Bilac, Afrânio Peixoto e Eça de Queiroz. [...]

Antes conhecido como o Casarão do Largo de São José, foi o major Andrade quem batizou a casa de "Solar Caxangá".

Esse foi o período no qual o Solar Caxangá foi o centro de propaganda oposicionista no Município. O major Andrade e o coronel Prudente Alecrim (1863-1927) pontificam na condição dos patronos da oposição política em Macaíba, uma vez que lutaram nas décadas de 1910-20-30, contra o chefe situacionista, coronel Manoel Maurício Freire (1863-1927). Após a morte de Neco Freire, o major Andrade foi o primeiro prefeito após a Revolução de 1930, tendo sido eleito por duas vezes Deputado Estadual.

O major Antônio de Andrade promoveu a recepção de pessoas ilustres em seu belo Caxangá, entre os quais o capitão José da Penha, que lá hospedou-se quando veio a Macaíba para um comício contra os Albuquerque Maranhão. Por lá também passaram Café Filho, tenente Ernesto Geisel, Tavares de Lyra, Auta de Souza, Augusto Severo, Henrique Castriciano, além da Família Imperial do Brasil, que em 1925 visitou o estado. Na oportunidade, o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança, filho da princesa Isabel, teria dito: “Passar uma tarde sob o refúgio das árvores do Solar Caxangá, melhor coisa não há.”

Após uma longa enfermidade, o major Antônio de Andrade Lima faleceu em seu solar, no mês de setembro de 1951. A viúva, dona Segunda, mulher espartana e de refinada educação, assumiu a direção da casa junto com a filha Consuelo, e, meses depois, passaram a receber convidados para o famoso "chá da Califórnia", servido com todo o rigor e etiqueta. Entre políticos e intelectuais, parentes e amigos, a casa estava sempre cheia.

Maria Segunda faleceu em maio de 1978, dois meses antes de completar 100 anos. No período de 1981 a 1989 o histórico solar foi alugado por dona Consuelo Andrade à Prefeitura de Macaíba e deu lugar à Secretaria de Trabalho e Ação Social.

Nessa época, Macaíba iniciava um processo de crescimento desordenado e vários espaços antes pertencentes à Fazenda Barra, com sede no Caxangá, foram invadidos, dando origem a projetos habitacionais de futuros bairros: Campo da Santa Cruz, Campo das Mangueiras, Conjunto Residencial Fabrício Pedrosa, Alto Raiz, Morada da Fé, Ruas Eloy de Souza e Coité.

Tudo terra desmembrada do Caxangá. Por fim, observou-se, em abril de 1998, à derrubada das árvores e seus jardins. Tudo loteado. Com isso, as novas gerações ficaram impedidas de ver uma das paisagens mais bonitas e bucólicas de Macaíba. Em abril de 1989, o solar do Caxangá foi recuperado por Eudes Cordeiro, sobrinho de dona Consuelo, falecida nesse mesmo ano. Dona Inah Andrade, irmã mais nova, foi morar no local com os filhos Letúrzia e Ronald e o neto Eudes Cordeiro, o qual veio a falecer em fevereiro de 1998.

No início de 2001, dona Letúrzia decidiu retirar-se do solar com a mãe e os demais familiares para uma casa próxima. Na ocasião alegou que a mudança era necessária devido aos altos custos de manutenção do casarão e das recordações tristes que guardava da antiga morada. Por fim, em março de 2001 faleceu dona Inah Andrade e, em maio do mesmo ano dona Letúrzia.

O solar do Caxangá permaneceu fechado durante todo o ano de 2001 até janeiro do ano seguinte, quando foi comprado por um grupo de pessoas preocupadas com a preservação do patrimônio histórico do município. No dia 12 de maio de 2002, o grupo fundou no antigo casarão o Instituto Pró-Memória de Macaíba, tendo como objetivo principal o resgate e a preservação dos bens culturais desse município. Nesse mesmo ano, o prédio do solar foi tombado como Patrimônio Histórico do Estado, pela Fundação José Augusto. Hoje, o Instituto dispõe de uma ampla biblioteca, de um vasto acervo iconográfico e espaços históricos da maior relevância, além de ambientes para lançamentos de livros, exposições de artes plásticas, saraus literários etc.