segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Alberto Maranhão

Governador Alberto Maranhão

Irmão de Pedro Velho e Augusto Severo, Alberto Maranhão nasceu em Macaíba, Rio Grande do Norte, no dia 02 de outubro de 1872. Filho do casal Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão e de Feliciana Maria da Silva Pedroza, iniciou seus estudos, primeiramente, em Macaíba e, depois, em Natal. Mais tarde, foi para Recife, formando-se em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais de Pernambuco, no dia 8 de dezembro de 1892, aos 20 anos de idade.

Casou no ano de 1895 com a sobrinha D. Inês Barreto, filha de Juvino Barreto e Inês Maranhão e do casal nasceram oito filhos: Paulo, Laura, Judite, Alberto Maranhão Júnior, Juvino, Cleantho, Caio e Áureo e 19 netos.

Na juventude, participou do Congresso Literário, que mantinha o jornal A Tribuna. Com outros companheiros, fundou o Grêmio Polymathico. Dirigiu o jornal A República, “onde teve o ensejo de reafirmar o seu invencível valor de jornalista e homem de letras escrevendo, sem assinar, crônicas, tópicos e editoriais", conforme relata a escritor Meira Pires, no seu livro "Alberto Maranhão e o seu tempo” (1963).

No final do século passado, exerceu a função de promotor público em Macaíba; ocupou o cargo de secretário de Estado na administração do seu irmão Pedro Velho, oportunidade na qual apresentou um volume bem documentado sobre o RN. Em 14 de junho de 1899, foi eleito governador do estado, conduzindo os destinos políticos do Rio Grande do Norte de 1900 a 1904.

Alberto Maranhão e família chegando na Vila Severo, no Monte (hoje Hospital Onofre Lopes)


Na sua gestão, aprovou a lei nº 145, de 06 de agosto de 1900, que promoveu o desenvolvimento cultural do Estado, constituindo-se em fato inédito no país, determinando que:

(...) é o governador autorizado a premiar livros de ciência e literatura produzidos por filhos domiciliados no Rio Grande do Norte, ou naturais de outros Estados quando neste tenham fixa e definitiva a sua residência. (RIO GRANDE DO NORTE, 1900).

Foi ele quem inaugurou o Teatro Carlos Gomes (hoje Alberto Maranhão), no dia 24 de março de 1904. A renda do teatro era destinada para ajudar aos retirantes, vítimas da seca, que se encontravam em Natal.

Com o término de sua administração, foi eleito deputado federal, e durante o exercício de seu mandato fez parte da Comissão de Diplomacia. Voltou a assumir o governo do estado, de 1908-1913, realizando uma profícua administração: fundou o Conservatório de Música; o Hospital Juvino Barreto (hoje Onofre Lopes); o Derby Clube (para incentivar o hipismo); e construiu a Casa de Detenção e o Asilo de Mendicidade. Implantou a luz elétrica em Natal e, posteriormente, os bondes elétricos.

Fomentou a educação estadual inaugurando a Escola Normal, em 3 de maio de 1908, e implantando o primeiro grande movimento de educação de massa popular no RN, através da rede de Grupos Escolares. Reconstruiu o Teatro Carlos Gomes, dando-lhe as feições atuais e que foi entregue ao público no dia 19 de julho de 1912.

Alberto Maranhão estendeu sua ação também ao interior, como revela o escritor Itamar de Souza, em seu livro A República Velha no Rio Grande do Norte (1889-1930), de 1989:

Em São José de Mipibu, ele mandou as águas de uma fonte natural e permanente para o abastecimento di água daquela cidade. Em Macaíba, sua terra natal, construiu o cais de atracação, melhorando assim o transporte fluvial entre aquela cidade e a capital do Estado. Em Macau, mandou fazer um aterro, numa extensão de quatro quilômetros, ligando esta cidade à estrada do sertão, à margem do rio Assu. Para facilitar o deslocamento de pessoas e produtos entre o sertão e as cidades portuárias, ele construiu três mil quilômetros de estradas carroçáveis em direção às cidades de Canguaretama e Natal. (SOUZA, p. 241, 1989).

O segundo governo de Alberto Maranhão surpreende pelo dinamismo, sendo considerado, por unanimidade, como melhor administração durante a República Velha. Nem tudo, porém, foi positivo nesta gestão do oligarca potiguar que procurou, segundo alguns pesquisadores, imortalizar os membros de sua família. O município de Vila Nova teve o seu nome alterado para Pedro Velho. Além dessa homenagem, mandou fazer um busto do irmão que foi colocado no Square Pedro Velho. Numa avaliação, Itamar de Souza critica o ilustre político macaibense:

Este segundo governo de Alberto Maranhão teve três características básicas: primeiro, procurou imortalizar os membros da oligarquia apondo seus nomes em municípios, repartições públicas, monumentos, e praças; segundo, monopolizou importantes setores da economia estadual, favorecendo, assim, os amigos e correligionários, em detrimento do erário público; e, terceiro, realizou uma grande e inovadora administração com o dinheiro tomado emprestado no estrangeiro. (SOUZA, p. 129,1989).

Após deixar o governo, em 31 de dezembro de 1913, Alberto Maranhão foi eleito Deputado Federal, representando o seu estado nessa função, de 1927 a 1929. Abandonando a vida política, saiu do Rio Grande do Norte e foi morar com a família em Parati, no estado do Rio de Janeiro, onde foi juiz municipal.

Busto de Alberto Maranhão no teatro da Ribeira, em Natal.


Em 1918, publicou dois trabalhos: Na Câmara e na Imprensa e Quatro discursos históricos. Alberto Maranhão faleceu aos 71 anos, no dia 01 de fevereiro de 1944, em Angra dos Reis, sendo sepultado no outro dia, em Parati, no estado do Rio de Janeiro.


Em Macaíba, foi dado o nome de Alberto Maranhão a um conjunto habitacional, localizado nas proximidades do bairro Campo das Mangueiras, no final da década de 80. Na cidade de Mossoró existe uma avenida. Alberto Maranhão é nome da maior honraria cultural do RN, distribuída pelo governo do estado. Em 2005, o Rio Grande do Norte transladou do Rio de Janeiro para Natal, os restos mortais do governador da cultura, sendo sepultados no teatro que ostenta seu nome.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Artistas do repente e cordel conquistam direito à aposentadoria

Foi aprovado na Comissão de Assuntos Sociais, em caráter terminativo, o Projeto de Lei do Senado – PLS 417/09, de autoria do senador Inácio Arruda, que dispõe sobre aposentadoria por idade para repentistas e cordelistas. O senador Garibaldi Alves Filho foi o relator da matéria. Na ocasião o parecer favorável a aprovação da matéria foi lido pelo relator "ad hoc", senador Paulo Paim. O projeto segue agora para apreciação na Câmara dos Deputados.

Repentistas e cordelistas poderão requerer aposentadoria por idade.

De acordo com o projeto, repentistas e cordelistas poderão requerer aposentadoria por idade, no valor de um salário mínimo, durante dez anos, contados do dia 1º de janeiro de 2010, desde que comprovem o exercício da atividade artística, ainda que descontinua, no período imediatamente anterior ao requerimento do benefício, em número de meses idênticos à carência do referido benefício.

O senador Inácio Arruda justifica sua propositura, lembrando que os repentistas e cordelistas possuem uma importância fundamental na cultura popular e regional brasileira, mas não têm sido devidamente valorizados. Para o senador, a legislação previdenciária não pode deixar passar ao largo essa categoria profissional que, embora informal, muito tem contribuído para a formação da cultura popular do nosso país.

Fonte: Assessoria do gabinete do Senador Inácio Arruda

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Padaria Brasil: Alberto Silva e Zebina Alecrim

As cidades se destacam na sociedade pelos seus filhos proeminentes, por sua importância econômica e política. Contudo, existem espaços tradicionais nos quais emanam figuras de relevo no universo municipal. Discorrerei neste artigo sobre duas respeitáveis figuras da vida social e comercial de Macaíba, e sobre o projeto comercial que ambos realizaram e que se firma até hoje no cenário comercial de Macaíba.

Em setembro de 1902, o empreendedor Alberto Ferreira da Silva (1885-1970) investiu parte da herança paterna na instalação da primeira panificadora da cidade de Macaíba, que recebeu a denominação de padaria Brasil. Situada, desde a fundação, na rua da Conceição, no centro da cidade.

A inauguração foi festiva, com a presença da sociedade macaibense, do presidente da intendência coronel Aureliano Medeiros, da banda municipal deleitando os presentes com os dobrados em voga na época e, claro, sob as bênçãos do padre Marcos Aprígio de Souza Santiago, que estava à frente da paróquia de Macaíba no período.

A padaria Brasil passou a ser referência na cidade. Mesmo quando surgiu a padaria de Francisco Campos, na década de 30, a população continuou fiel. Porém, havia espaço para os dois comerciantes. A cidade crescia, e comportava todos os empreendimentos que desejassem se instalar na localidade.

Desde então, a padaria foi lembrada em diversas publicações. Em seu livro intitulado Macaíba, imagens, sonhos e reminiscências, o escritor macaibense Meneval Dantas (1911-2002) descreve a padaria dos tios: “A padaria Brasil, abastecia a população da cidade e dos povoados em redor, com biscoitos, bolachas, doces, palma e os pães mais gostosos da freguesia de Nossa Senhora da Conceição”. Também, Rui Santos no livro Macaíba de cada um, organizado por Jansen Leiros Ferreira, descreve: “(...) E a padaria Brasil de seu Alberto Silva, o pão doce quentinho era uma beleza (...)".

Segundo os familiares e amigos próximos, Alberto Silva possuía livros antiguíssimos com deliciosas receitas de bolos, biscoitos e pães, isso talvez explique a preferência da população. Albaniza Lima, que foi uma das contemporâneas de Alberto Silva, relata que todo fim de noite ele distribuía pães aos mais carentes. E o pão de um dia para o outro era vendido bem mais barato e ficou conhecido na cidade como o “pão dormido”.

Na década de 40, José Maria Magalhães (1910-1959), casado com Erneide Silva Magalhães (filha de Alberto), passa a gerenciar a firma. Com a morte de José Maria, seu filho Antônio Vicente Magalhães, conhecido como “Tonito”, assumiu os negócios e no ano de 1970 vendeu o comércio a José Paulo do Nascimento, conhecido por Zé Paulo e que faleceu em 1983. Este por sua vez se desfez da padaria vendendo-a no ano de 1976, a Pedro Messias da Cruz, que reformou o prédio e modernizou as novas instalações da padaria.

Hoje, as novas exigências da economia globalizada fizeram com que a padaria Brasil passasse a não vender mais apenas pão, leite, doce e bolachas. Para se manter no mercado sem perder a qualidade, foi preciso transformar o estabelecimento em um minimercado, ou centro de conveniência. Diversificando, assim, as atividades no setor.

Se faz mister relembrar a vida dos dois personagens construtores da tradicional padaria Brasil e que outrora foram figuras respeitadas e até reverenciadas municipalmente.

Alberto Ferreira da Silva nasceu em 1884, filho de Manoel Thomaz Ferreira da Silva (descendente da família Ferreira da Silva de São José de Mipibu/RN) e Maria José da Costa Alecrim, irmã do Coronel Prudente Alecrim. Investiu a herança recebida do pai, abastado senhor de engenho, na instalação de uma padaria, a qual ainda hoje tem a mesma denominação: Brasil! Falava francês fluentemente, sendo sempre o marcador oficial das quadrilhas juninas, nos seus repetidos e enfáticos anarriê, chã de dama, balancê e alavantur ...

Muito cuidadoso ao ponto de ter as suas iniciais gravadas entrelaçadas no frontispício da sua residência. Quanto ao figurino, nos fala Jansen Leiros: “Invariavelmente de branco, paletó e gravata, sapatos duas cores e chapéu de palhinha, sempre importado”.

Foi o doador do terreno, que na verdade era parte do jardim de sua casa, para a instalação do primeiro centro espírita da cidade. Por morte do seu tio e sogro, o Coronel Prudente, herdou o que foi o primeiro carro da cidade, um studebaker amarelo e com capota removível.

Militou na política local, sendo Intendente de 1917 a 1919, assumindo a chefia do executivo de 8.1.1918 à 10.8.1919, pois o Presidente João Soares da Fonseca Lima - Joca Soares estava doente. Deixou a política sem saudades, como fala o seu neto Tonito Magalhães, que cita a sua frase de fim de mandato: “Deus me livre de política! Meu Deus, nunca mais”.

A companheira de Alberto Silva foi d. Maria Zebina de Mello Alecrim, nascida no movimentado ano de 1888. Seu pai o Coronel Prudente Gabriel da Costa Alecrim, ex-intendente e deputado estadual, era abolicionista e junto ao sogro, o comendador Umbelino Freire de Mello, sócio da grande firma “Paula, Eloy e Cia”, fazia parte do Clube Abolicionista da Macaíba, e na gestão do Comendador, declarou livres os escravos na sua vila, aos 06 de janeiro de 1888.

D. Zebina Alecrim foi uma figura singular, muito tímida e retraída, vivia primeiro para a Igreja e o piano, depois, para os filhos e netos. Foi educada por freiras no Recife, sendo eximia pianista (como sua mãe D. Ana Pulchéria Pessoa de Mello Alecrim), e era nos saraus promovidos pela família, no casarão da Rua da Conceição, que a jovem Maria Zebina de Mello Alecrim deleitava os convidados com valsas sentimentais de Schubert e dos compositores nacionais, entre os quais Carlos Gomes. Esse ambiente só foi quebrado em 1910, quando casou com o primo Alberto Ferreira da Silva, com quem teve três filhos: Edison Alecrim e Silva, Emane Alecrim e Silva e Erneide da Silva Magalhães.

Os filhos deram aos casal seis netos: de Edison e Odete: Regina Coeli e Mário Gabriel (residentes no Rio de Janeiro); de Erneide e José Maria: Antonio Vicente Magalhães (Tonito), José Gilberto Magalhães (Betinho), Rosa Maria Magalhães e Alberto Neto (Betuca).

Em 12 de novembro de 1927, D. Maria Zebina foi uma das mulheres macaibenses que pioneiramente se inscreveram eleitoras, autorizadas pelo cunhado Dr. Virgilio Dantas. Foi na residência da mana Zebina, que o escritor Octacílio Alecrim escreveu o seu "Tamatião", quando passava umas férias em Macaíba.


Este casal ilustre viveu 60 anos de união conjugal, até que em 1970 faleceu D. Maria Zebina Alecrim e um mês depois, sem suportar a saudade da esposa, foi a óbito o velho gentleman, “o homem mais elegante da cidade”, respeitado pela honradez da palavra, cercado pelo carinho dos familiares.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Fundada a Academia Macaibense de Letras

Fundadores da Academia Macaibense de Letras: Na 1ª fila, da esq. p/ dir. Júscio Marcelino, Racine Santos, Rui Santos, Olimpio Maciel, Valério Mesquita, Rivaldo de Oliveira, Cícero Macedo, Anderson Tavares, João Batista Xavier e Héverton Duarte. Na 2ª fila da esq. p/ dir. Carlos Gomes, Wellington Leiros, Rivaldo de Oliveira, Jansen Leiros e Ivoncisio Meira; na frente na mesma ordem; Odiléia Mércia, Sheyla Ramalho, Maria de Lourdes Leite, Elizabeth e Nássaro Nasser.


Cidade da Macaíba, 12 de setembro de 2010, no dia em que se comemora o nascimento da poeta Auta de Souza, foi fundada a Academia Macaibense de Letras. Cidade histórica de inúmeros rebentos intelectuais, espalhados nos mais diversos campos da nossa cultura, Macaíba merecia ter uma acdemia de letras. Primeiro, para honra e glória dos seus filhos cujos nomes ornamentam as cadeiras instituídas; segundo, para destacar os individuos que em sua individualidade, lutam, verdadeiramente, desprovidos de bandeiras políticas partidárias, para projetar o nome da cidade com o relevo que ela merece dentro do cenário histórico-cultural do Rio Grande do Norte, movidos unicamente pelo amor que sentem por sua urbe.


Assim, a Academia Macaibense de Letras terá como objetivos o cultivo, a preservação e a divulgação do vernáculo, da literatura, e da atividade cultural em seus múltiplos aspectos, científico, histórico e literário, contribuindo com iniciativas úteis ao desenvolvimento cultural do município de Macaíba, do Estado do Rio Grande do Norte e do Brasil.


Diretoria Provisória


Presidente: Jansen Leiros Ferreira;


Vice-Presidente: Olímpio Maciel;


Secretário: Anderson Tavares;


Tesoureiro: Raimundo Ubirajara de Macedo.


Conselho Fiscal:


Maria de Lourdes Alves Leite;


Odiléia Mércia Gomes da Costa;


Sheyla Ramalho Batista.


Patronos e Acadêmicos:


Cadeira n.º 01 – Abel Coelho - (João Marcelino de Oliveira);


Cadeira n.º 02 - Alberto Maranhão - (Carlos Roberto de Miranda Gomes);


Cadeira n.º 03 – Augusto Severo - (Valério Alfredo Mesquita);


Cadeira nº 04 – Augusto Tavares de Lyra - (Francisco Anderson Tavares);


Cadeira nº 05 - Auta Henriqueta de Souza - (Jansen Leiros Ferreira);


Cadeira nº 06 – Clóvis Jordão de Andrade - (João Batista Xavier de Sousa);


Cadeira nº 07 – Dario Jordão de Andrade - (Ivan Maciel de Andrade);


Cadeira n° 08 - Edilson Cid Varela - (Ivoncisio Meira de Medeiros);


Cadeira nº 09 – Eloy Castriciano de Souza - (Olímpio Maciel);


Cadeira nº 10 – Estefânia Alzira Mangabeira - (Sheyla Maria Ramalho Batista);


Cadeira n° 11 - Henrique Castriciano de Souza - (Racine Santos);


Cadeira n° 12 - Hiran de Lima Pereira - (Júscio Marcelino);


Cadeira n° 13 - Enock de Amorim Garcia - (Roosevelt Meira Garcia);


Cadeira n° 14 – João Alves de Melo - (Rivaldo de Oliveira);


Cadeira 15 - João Batista de Vasconcelos Chaves - (Rui Santos da Silva);


Cadeira n° 16 – João Angyone da Costa - (Nássaro Nasser);


Cadeira n° 17 - José Leiros - (Wellington de Campos Leiros);


Cadeira nº 18 – José Melquíades de Macedo - (Raimundo Ubirajara de Macedo);


Cadeira nº 19 – Luís Tavares de Lyra - (Armando Roberto Holanda Leite);


Cadeira n° 20 - Maria de Lourdes Cid - (Maria de Lourdes Leite);


Cadeira nº 21– Meneval Dantas - (Odiléia Mércia Gomes da Costa);


Cadeira n° 22 - Murilo Aranha - (Osair Vasconcelos de Medeiros);


Cadeira nº 23 – Maria Alice Fernandes - (Héverton Duarte);


Cadeira n° 24 - Octacílio Alecrim - (Cícero Martins de Macedo Filho).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Renard Perez - escritor

Renard Perez em sua biblioteca


Anderson Tavares e Renard Perez


Nascido em Macaíba, na rua do Pernambuquinho em 03 de junho de 1928, é filho do espanhol Jaime Quintas Perez e da potiguar Joana Geraldo Freire. É irmão de Rutênio e de Rossini Perez.


Renard Perez teve uma bela infância em Macaíba, na paisagem pacata e interiorana, a casa assobradada construída em 1931, num grande sítio no Vilar (Rua Heráclio Vilar). O mundo doméstico, o contato com a natureza nos espaços abertos do sítio e arredores os piqueniques com famílias amigas, os banhos na lagoa de Paparí e em São José de Mipibu; as aulas no Grupo Escolar Auta de Souza onde aprendeu a ler e recebeu as primeiras noções de Geografia, História e mesmo Botânica - estas últimas ministradas ao vivo em bucólicas excursões que a escola organizava.


Em 1943, sua família segue para o Ceará, instalando-se em Fortaleza. Naquela cidade, aos quatorze anos Renard desperta para as letras. Num começo de adolescência mais solitária (os dois irmãos mais velhos nos respectivos mundos) a que a vida no colégio não dava a suficiente contrapartida, Rossine enchia o cotidiano com as leituras da idade - as histórias em quadrinhos do Suplemento Juvenil e O Globo Juvenil, o Lobato para crianças, os livros de aventuras da Coleção Terramarear.

Por outro lado, seu pai Jaime Quintas Perez, imigrante espanhol (da Galícia), de formação quase apenas autodidata, era um tremendo leitor - adquiria todas as novidades em literatura de prosa (traduções, sobretudo) que apareciam nas livrarias de Fortaleza - leituras para as quais o moço em breve passava. Meio de evasão que; num caminho a bem dizer natural, desaguaria na própria criação literária - em contos meio aparentados com as histórias que lia.


A certa altura um desses contos, esquecido nas folhas do caderno escolar, foi descoberto por um colega que se entusiasmou com sua leitura e mostrou-o ao irmão marista que era professor de ambos.


Na adolescência, Renard lia os livros que encontrava na estante paterna: de cambulhada, de Blasco lbañez a Romain Rolland (Jean Christophe), passando por Gorki, Steinbeck, Richard Wright, Remarque, Richard Llewellin (Como era verde meu vale), Renné Belbenoit! (A Ilha do Diabo), e ainda Pearl S. Buck, Cronin, Maugham, Zweig, Milton, ao lado de alguns nacionais - Humberto de Campos, Lins do Rego (Riacho Doce), e o Érico Veríssimo da primeira fase.


Foi por essa época que o escritor descobriu a genialidade de Machado de Assis, não na mesma forma dos autores já citados, e nem sequer por livros seus, mas através da Biblioteca Internacional de Obras Célebres - antiga coleção de grandes volumes, que um vizinho começou emprestar-lhe em troca dos livros que lhe apanhava na estante paterna. O primeiro trabalho lido foi O Manuscrito de um Sacristão; o segundo, num novo volume, O Enfermeiro.


Renard Perez seguiu para o Rio de Janeiro, em fins de 1943, foi como a anterior para Fortaleza, conseqüência natural do trabalho paterno. Seu pai viajou duas vezes da Europa para a América em busca de trabalho - a primeira aos 14 anos, indo então para Cuba a chamado de seu avô; a segunda, bem mais tarde, para a Argentina, Uruguai é em seguida Brasil (Nordeste). Em 1920, aos 28 anos, casou-se em Natal, com Joana Geraldo Freire, de São José de Mipibu, passando a residir em Macaíba. Espírito empreendedor conseguiu atingir uma situação estável, de prosperidade (de empreiteiro em serviços de pavimentação e uma incursão paralela no comércio, acabaria como sócio de uma firma de construção civil). Minha vida até o fim da adolescência está assim subordinada à movimentação em função de seu trabalho e à conveniência da vida da família.


Somente no Rio de Janeiro, a partir de 1944, a par do ensino de Literatura no curso colegial é que volto a ter contato com Machado de Assis, e passa a ler toda a obra, agora metodicamente, bem como certos autores encontrados originariamente na Antologia Nacional. Começava, por outro lado, a acompanhar os suplementos literários, travava conhecimento com os modernos (Jorge Amado). Descobriu as Obras primas do Conto Brasileiro, de Edgar Cavalheiro, Mário de Andrade, Marques Rebelo, Aníbal Machado - revelados ali, foram outras grandes aquisições. Conheceu Graciliano Ramos, sobre o qual lera uma resenha - e que o deslumbrou, como antes o fizera Machado. E seriam eles - Machado, Mário, Rebelo e Graciliano - os grandes responsáveis pela direção que Renard iria tomar.


Foi ainda no Rio de Janeiro que Renard Perez avança na seara literária com uma pequena novela: “Quando eu morava no Norte”, publicada em 1945, e em Contos Magazine, seguida em pouco por mais dois contos na Revista da Semana, foram os novos passos nessa apaixonante aventura com que parecia abrir-se ao moço o caminho para o mundo das Letras.


Em fins dos anos 40, inícios dos 50, surgiu um movimento de reivindicação, de parte dos autores novos pela conquista de um espaço nos cadernos literários da grande imprensa, que era perpetuamente ocupados pelos ''veteranos'' - movimento que se estendeu pelo país e que resultou um surto de revistas desses “novos” - no Rio, a Revista Branca. Sensível àquela reivindicação, a escritora Dinah S. de Queiroz, que mantinha em "A Manhã" uma crônica diária sob o titulo de "Café da Manhã", ofereceu esse espaço em determinado dia da semana para uma crônica desses "novos", recebendo o autor quantia correspondente à sua. Assim aparecia, em setembro de 1949, a "Crônica dos Novos", no Café da Manhã" que se prolongaria por um ano e meio, mas já começando a ter, a partir do terceiro mês, uma página dominical no corpo do jornal - espaço em que atuavam, com Renard e uns poucos mais, Fausto Cunha, Samuel Rawet, Luís Canabrava, Jones Rocha, Nataniel Dantas. Movimento ainda que, sem falar no gesto de generosidade que o fez nascer, e no sentido da divulgação, muito valeria no campo de aprendizado no sentido profissional e no do companheirismo.


Foi em 1951, já desfeito o grupo do "Café da Manhã", que Renard Perez publicou seu primeiro livro. Tinha publicado mais quatro contos desde a minha entrada no grupo, um deles classificado num concurso da Revista Branca; um outro citado no "Parecer da comissão Julgadora" constituída por Sérgio Milliet e Antonio Cândido, no concurso de livro no gênero promovido pelo jornal Tentativa, de Atibaia, SP; tinha as crônicas do “Café da Manhã”. Convertera em novela um romance de caráter psicológico em que vinha trabalhando - o drama, em ambiente de pensão, de um estudante envolvido num caso de consciência. Tornou-se O Beco. Foi editado pela Revista Branca, o desenho de capa é de Santa Rosa, numa edição de 500 exemplares. Era abril de 1952.


O livro teve uma crítica razoável, até dezembro sete artigos, o primeiro já na semana de lançamento, assinado por Willy Lewin. De citar, ainda, os de Fábio Lucas, Oswaldino Marques, Fausto Cunha. Essa crítica pode ser definida nestas frases de Samuel Rawet, membro da Comissão que aprovou a publicação: “Das duas partes, a segunda está melhor realizada, com mais densidade emocional e mais contenção de linguagem”; e esta: “Renard Q. Perez deixa-nos, no fim da leitura, uma boa impressão e uma certeza por suas possibilidades de ficcionista”. Fausto, que conhecia os contos do autor ainda recentes, enfatizou essa produção ulterior. O artigo, no Letras e Artes, se intitulava "Renard Q. Perez, um Escritor".


Incursionando pelo jornalismo, Renadr Perez teve um breve período na revista Manchete - sempre jornalismo literário – seja na imprensa e no rádio, aí na condição de funcionário do Estado e atuando na Raquete Pinto. Esteve desde 1953, por trinta e três anos, fazendo nessa rádio programas de caráter cultural.


Na Revista Manchete Renard Perez não ultrapassou os cinco meses. Não se adaptou ao ambiente, à própria função, tendo em vista a natureza das reportagens que lhe cabia fazer (ainda assim, fez sete assinadas). Em todo esse tempo não deixou de colaborar em jornais e publicações literárias - Jornal do Brasil, Paratodos, Jornal de Letras, até que foi chamado por Moacyr Werneck de Castro para a Última Hora, na qualidade de colunista literário. Ficou aí, com seção diária, de abril de 1961 a julho de 1962 - período do qual possui, como o da Revista da Semana, as melhores lembranças. Em 1963, assumiu a chefia-de-redação da Leitura, onde passou dois anos e conseguiu fazer um trabalho de renovação, havendo para lá levado nomes como Otto Maria Carpeaux, Joaquim Cardoso e Marques Rebelo, sangue novo como Heitor Cony e um Fernando Py. Foi sua última experiência no setor.


Na imprensa escrita, a publicação de seu segundo livro, Os Sinos, pelo Jornal de Letras, aproximou-o de José Condé, que organizava a página literário do “Correio da Manhã”. A seu convite Renard fez nela, de 1955 a 1958, uma série de reportagens de caráter biográfico (em número de 64) - Escritores Brasileiros Contemporâneos, parte da qual, com outra posterior, seria reunida em obra de igual título (1ª e 2ª séries, 1960/1965: 2ª ed. rev. 1970/71, Ed. Civ. Bras.).


Ainda em 1958 (agosto) Foi trabalhar, já com carteira profissional, na Revista da Semana, a essa altura em decadência e onde, por abandono de função por parte do novo redator chefe (que lhe convidara), ocupou o lugar até seu fechamento (janeiro de 1959). Sempre interessado na coisa literária e sem fugir do espírito da revista, procurou dar, àquele ambiente, a melhor acolhida. Renard Perez convidou para ali colaborar nomes como Carlos Drummond, Jorge Amado (que voltara há pouco para o Brasil e relançava o Paratodos) e Aníbal M. Machado.


Na obra literária de Renard Perez, os temas dominantes são relativos ao cotidiano, com ênfase no comportamento humano, de elementos da pequena classe média, da gente do povo na sua individualidade. Com seus conflitos (e alegrias). O amor e o desamor. Um íntimo de repente captado; a beleza (ou fealdade) secreta.


Afastado do Nordeste em termos físicos, Natal aparece em sua obra (como Macaíba, Fortaleza) o mais das vezes de forma subjetiva, através de suas vivências aí.

O romancista, novelista e sobretudo contista Renard Quintas Perez reside em Copacabana, onde o visitei em julho de 2010. Sobre a sua concepção de literatura disse: É à maneira de expressão de meu sentimento de ver e viver a vida.


Sobre sua cidade natal afirma: “Nasci em Macaíba e aí vivi até os seis anos, voltando oito anos mais tarde, numas férias. Depois disso, só tornaria a vê-la quatorze anos depois. Procurei, então, meus lugares de infância. E verifiquei, fascinado, que quase tudo se encontrava como no meu tempo.


Assumiu, essa visita, a maior importância para mim. Porque, vendo a cidade como há quatorze, vinte e dois anos, era como se ela restituísse algo que me parecera perdido. Algo que a vida, a cidade grande ameaçavam tirar. Foi como uma volta a mim mesmo.


Desde então, sempre que um cansaço do hoje, uma saudade do passado me chegam, já sei, é tempo de visitar Macaíba. E volto a ela, e encontro os doces cenários amigos. Suas ruas, o rio, o sítio onde me criei, a igreja. As próprias pessoas – me parecem – são as de meu tempo. E novamente acontece o encantamento. Aquela tranqüilidade me aquece, atua reconfortante dentro de mim”.


Sua bibliografia é a seguinte:


O Beco (novela), de 1952;


Os Sinos, de 1954;


Escritores Brasileiros Contemporâneos, 1ª série, de 1960;


O Tombadilho, de 1961;


Escritores Brasileiros Contemporâneos, 2ª série, de 1965;


Começo de caminho: O áspero amor, (romance), de 1967;


Chão Galego, de 1972;


Irmãos da Noite, de 1979;


Trio (conto), de 1983.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A tragédia de Dina

Dina, em 1933. (acervo: Anderson Tavares)




O escritor Meneval Dantas, em seu livro de reminiscências sobre Macaíba, resgata a história trágica de uma jovem querida por toda a Macaíba de 77 anos passados. Geralda Medeiros Rocha, Dina (*22-06-1916 +18-05-1933) era filha do Antônio Cabo ou Antônio da Rocha Bezerra (*06-07-1884 +30-03-1956) e Emília Medeiros da Rocha. O casal teve 10 filhos, sobrevivendo Dina e Antonieta Medeiros Rocha, com a qual conversei, em 2007, sobre a trágica morte de sua irmã.

Dina foi uma jovem bonita, alegre e bastante comunicativa, sendo, por isso bem relacionada no seio da sociedade macaibense. Teve participação ativa em vários movimentos da igreja católica local, destacando-se como cantora nas missas da matriz, de cuja padroeira Nossa Senhora da Conceição era devota.

Consegui apurar os nomes das melhores amigas de Dina: Joanete Moura, Dália Mendonça, Albaniza Lima e Irene Monteiro. Dina, como já foi dito, era uma jovem bonita, possuía uma beleza invulgar e namorava o jovem Nestor Lima.

Segundo sua irmã, Dina possuía os sonhos possíveis para as garotas de sua época; queria estudar no Colégio da Imaculada Conceição e ser professora em sua província.

A trágica passagem da história de minha terra, contou-me D. Antonieta, teve em Dina a personagem principal no dia em que ela convidou outras amigas para tomar banho no açude do sítio Salermo, pertencente à Joca Leiros. Esse açude era a diversão de Macaíba naquela época, sempre reunindo sobre as frondosas copas de árvores ali existentes diversas pessoas para momentos de descontração.

Em depoimento, Nestor Lima me falou que estava no café Gato Preto na manhã de 18 de maio de 1933, quando Dina passou próximo ao local se dirigindo a rua do Cajueiro para seguir até o sítio Salermo e acenou para ele.
No sítio, as garotas tomavam banho quando Dina começou a se afogar descendo um desnível que levava a uma parte do açude perigosa, tida por funil. Ela afundava e submergia enquanto as amigas, desesperadas, tentavam retirá-la da água.

Após conseguirem retirá-la, correram com Dina seminua do sítio Salermo para a sua residência que ficava na rua da Cruz e lá chegaram as 10:00 horas. Dina ainda estava viva e a irmã Antonieta, então uma menina de 12 anos, ainda conseguiu desesperadamente abrir os olhos da irmã, cujas pupilas “ainda não estavam dilatadas”.

Infelizmente, Macaíba ainda não dispunha de clínicos residentes na cidade, e o médico Ricardo Barreto foi chamado, mas só chegou às 19h. Dina havia falecido às 15h.

O sepultamento aconteceu no cemitério de São Miguel às 10h da manhã seguinte, com grande acompanhamento e sob a consternação geral da cidade que chorava a moça alegre e querida por todos.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Na Academia Brasileira de Letras


Pettit Trianon - sede da Academia Brasileira de Letras


Convidado pelo acadêmico potiguar Murilo Melo Filho visitei a sede da Academia Brasileira de Letras. Em companhia do presidente do centro Norte-riograndense, Dr. Francisco Campelo, chegamos ao palácio “Austregésilo de Athayde”, edifício de 28 andares, encravado no centro do Rio de Janeiro. O prédio é espaço para atividades culturais da ABL e local onde se situa a Diretoria e a Biblioteca Rodolfo Garcia. Na sala da tesouraria, escritório do imortal potiguar Murilo Melo Filho, fomos recepcionados por ele que em meio as suas múltiplas atividades como gestor da academia, separou um tempo para apresentar-me as dependências do palácio “Austregésilo de Athayde” e do Pettit Trianon.


Contou-nos Murilo que em 1970, o presidente da república, general Emilio Garrastazu Médici, fez a doação do terreno e do pavilhão da Inglaterra para a ABL. O Pavilhão da Inglaterra, remanescente da exposição de 1922, foi demolido rapidamente e em seu terreno a ABL construiu um prédio de 28 andares com salas comerciais para serem alugadas.


O prédio em estilo moderno brutalista continua agregando vários elementos famosos dos arquitetos como áreas livres junto à rua e os brises, esses virados para a fachada da Rua de Santa Luzia. Foi inaugurado em 20 de julho de 1979. Garantindo definitivamente a independência financeira da academia.


Dentro do moderno prédio, Murilo Melo Filho nos apresentou sua maior obra dentro da ABL - A Biblioteca Rodolfo Garcia que foi construída na gestão do acadêmico Alberto da Costa e Silva e inaugurada em 22 de setembro de 2005 na presidência do acadêmico Ivan Junqueira. Murilo Melo Filho que ficou encarregado da organização da referida biblioteca só fez uma exigência, que o nome dado ao novo espaço fosse do imortal potiguar Rodolfo Garcia.


Instalada no 2º andar do Palácio Austregésilo de Athayde, a Biblioteca Rodolfo Garcia ocupa uma área de 1.300m², dividida em setores de atendimento ao público, técnico-administrativo e guarda do acervo, além de dispor de um espaço para exposições.

A Biblioteca Rodolfo Garcia atende a comunidade em geral, e em especial a pesquisadores graduados, com um acervo de aproximadamente 70.000 volumes. Centrado em filosofia, filologia, linguística, literatura, história e ciências humanas, o acervo é formado pelas coleções Geral, de Referência, de obras raras dos séculos XIX e XX - com destaque para a Brasiliana e Camiliana -, e por coleções particulares pertencentes à Agliberto Xavier, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, Arthur Vautier, Ary de Andrade, Carlos Magalhães de Azeredo, Celso Vieira, Fernando Nery, Franklin de Oliveira, Frédéric Mauro, Marcos Carneiro de Mendonça e Silvio Neves. O acervo vem sendo enriquecido por importantes doações, como as efetuadas pelos Acadêmicos Alberto da Costa e Silva, Alberto Venancio Filho e Josué Montello.


Saindo do palácio seguimos pelo jardim e junto à entrada do Pettit Trianon, encontra-se um dos mais conhecidos símbolos da Casa, a escultura em bronze de Machado de Assis, de autoria de Humberto Cozzo.


Já no Pettit Trianon vão surgindo, a cada passo, obras de arte instaladas no palacete Frances: o Saguão, com piso em mármore, lustre de cristal francês e peças de porcelana de Sèvres, conduz ao Salão Nobre, ao Salão Francês e à Sala Francisco Alves. O andar térreo compreende, também, a Sala dos Poetas Românticos, a Sala Machado de Assis e a Sala dos Fundadores.


No Salão Francês, falou-nos Murilo Melo, o Acadêmico eleito cumpre a tradição de permanecer sozinho, em momentos de reflexão, antes da cerimônia de posse. A seguir, Acadêmicos especialmente designados buscam o novo confrade e o introduzem no Salão Nobre, onde será empossado na Cadeira para a qual foi eleito.


Além das posses, realizam-se no Salão Nobre as Sessões Solenes e Sessões Ordinárias comemorativas.


No lado oposto ao do Saguão, a Sala dos Poetas Românticos abre-se para um belo pátio e reverencia Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Fagundes Varela e Gonçalves Dias, imortalizados em bustos de bronze.

Originais do livro: Esaú e Jacó de Machado de Assis

Na Sala Machado de Assis, organizada pelo Acadêmico Josué Montello, destacam-se objetos pessoais do escritor, como: livros de sua biblioteca, a escrivaninha onde trabalhava e um belo retrato a óleo de autoria de Rodolfo Bernardelli.


A Sala dos Fundadores e a Sala Francisco Alves, onde são realizados os lançamentos de livros dos Acadêmicos, abrigam importantes obras de arte e peças decorativas do acervo da Academia.


No segundo andar do Petit Trianon, estão a valiosa Biblioteca Acadêmica Lúcio de Mendonça, a Sala de Sessões e o Salão de Chá, onde se reúnem os Acadêmicos, às quintas-feiras.


Uma grande reprodução dos Estatutos da Academia, de 1897, assinados por Machado de Assis, Joaquim Nabuco e membros da primeira Diretoria, está afixada na Sala de Sessões, que também possui dois painéis com retratos dos fundadores e dos patronos das 40 Cadeiras da ABL.


O antigo Pavilhão Francês – Pettit Trianon é tombado pelo Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (INEPAC) da Secretaria Estadual de Cultura em 1987.


Ainda no prédio do Pettit Trianon destaca-se a Biblioteca Acadêmica Lúcio de Mendonça, que teve sua criação oficial em 13 de novembro de 1905 por proposta de Rodrigo Octavio, seu primeiro diretor, sob a presidência de Machado de Assis.


Academia Brasileira de Letras recebe, desde sua fundação, doações de coleções particulares de acadêmicos, de personalidades do mundo literário e cultural e de bibliófilos. Fazem parte do seu acervo primeiras edições de obras clássicas da literatura mundial, além de um grande número de obras raras dos séculos XVI a XX, destacando-se a edição de Os Lusíadas, de 1572, e um raríssimo exemplar das Rhythmas, impresso em Lisboa, no ano de 1595, de Luís de Camões.


A Biblioteca Acadêmica Lúcio de Mendonça atende aos Acadêmicos e pesquisadores com um acervo bibliográfico de aproximadamente 20.000 volumes, formado pelas coleções: Acadêmica, ABL, Referência, Camoniana, Periódicos e obras raras dos séculos XVI a XVIII, além de coleções particulares de Alberto de Oliveira, Afrânio Peixoto, Domício da Gama, Machado de Assis, Manuel Bandeira e Olavo Bilac.


Instalada no 2º andar do Petit Trianon, ocupa uma área de 250m², dividida em três ambientes. Além de livros, possui um acervo museológico composto por móveis de época, esculturas e quadros de grandes pintores.


Durante todo o percurso da visita, destacou-se o acervo museológico da ABL que é formado por obras de arte, mobiliário de época e peças de arte decorativas, assim como objetos de uso pessoal dos Acadêmicos. Nas coleções de pintura e escultura destacam-se obras de Portinari, Rodolfo Bernardelli, Gomes Carollo, Manuel Santiago, Leão Veloso e Bruno Giorgi.

Grande parte deste acervo está em exposição permanente no Petit Trianon Outras peças encontram-se nas dependências do Centro Cultural da Academia.


Contudo, o ponto alto da visita deu-se no arquivo da ABL que possui uma grande variedade de documentos textuais e iconográficos. É composto por correspondências, discursos, originais de obras literárias, fotografias e periódicos. Esses documentos, acumulados pela Academia desde a sua fundação, em 1897, recebem tratamento de acordo com as normas arquivísticas contemporâneas.


No arquivo, tive a oportunidade de receber das mãos de Murilo Melo Filho, os originais do livro “Esaú e Jacó” de Machado de Assis. Oportunidade certamente única.


O arquivo é composto por duas linhas de acervo: o Arquivo dos Acadêmicos, com a documentação pessoal dos membros efetivos, patronos e sócios correspondentes e o Arquivo Institucional, com a documentação administrativa e funcional. Notícias e textos literários publicados em jornais e revistas formam a Hemeroteca, outra valiosa fonte de pesquisa sobre os Acadêmicos e a Academia.

Na despedida, Murilo Melo Filho presenteou-me com livros autografados, documentos referentes ao general Lyra Tavares e, sobretudo, palavras de parabéns, de encorajamento e força para continuar com minhas pesquisas sobre minha terra e minha gente.



Murilo Melo Filho, imortal potiguar, ocupante da cadeira nº 20 da ABL, sucessor do Gal. Lyra Tavares



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sobre Sophia A. Lyra

Julho de 1984, Sophia Lyra e Odiléia. (Foto: acervo Anderson Tavares)



Sophia Lyra aos 100 anos de idade em 2003. (foto: acervo Anderson Tavares)


Rio de Janeiro, 27 de julho de 2010. Colégio Sion. Chego ao encontro com Madre Carmem Maria Tavares de Lyra – aos noventa anos, encontra-se reclusa ao seu quarto. Pede para aproximar-me, logo observo que chora, a situação era um tanto embaraçosa para mim. O passado e o presente floriam no mesmo canteiro interiorizado em sua alma. Abraçando-me exclama: “meu filho, Sophia foi em paz! É a vontade de Deus!”.


Por um momento parei e compreendi a amargura de quem, por possuir alma, chora a morte de um ente por demais querido. Mas aprendi que uma perda assim tão amarga deve ser espiritualizada sem demora. Não há sabedoria na dor que mergulha para aprofundar-se indefinidamente na alma humana. Os mergulhos fazem a dor esquecer a luz do irrevelado onde imaginamos existir a verdadeira fonte da consolação.

Naquele instante fui surpreendido com a nota de falecimento de Sophia Augusta de Lyra Tavares – a escritora Sophia Lyra - no dia 09 de novembro de 2009, dois dias antes de completar 106 anos. Madre Carmem disse-me que ainda tentou nos avisar por telefone em Macaíba. Sem sucesso. Vi que o numero do telefone que ela dispunha era anterior ao atual.

Sophia Lyra foi um dos grandes nomes da literatura feminina do século passado. Filha primogênita do ministro Augusto Tavares de Lyra e de Sophia Eugênia de Albuquerque Maranhão, nasceu no Grande Hotel da Lapa, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, quando seu pai estava deputado federal pelo Rio Grande do Norte.

Em 1904, foi batizada na capela de São José na fábrica de tecidos pelo padre João Maria. Seu pai fora eleito governador do Estado. Aqui permaneceu com a família até 1906, quando Tavares de Lyra foi convidado pelo Presidente Afonso Pena para compor seu ministério.

Residiu na avenida Junqueira Ayres, em casa ainda hoje existente, pertencente a Arquidiocese de Natal. Curiosamente, são desta época às memórias mais antigas que Sophia Lyra nos apresenta em seu livro sobre o pai: “(...) Mamãe contou-me que houve festa ao jovem governador que se despedia de sua terra para assumir a pasta da justiça e negócios interiores. (...) Eram foguetórios, vivas, músicas, cantos e... bumba-meu-boi. Aí entram minhas vagas lembranças esclarecidas por mamãe. Só me lembro bem da “burrinha”, de papai livrando-me dos arrancos do personagem e do lenço grande e colorido de vovô Pedro Velho”.

Retornando ao Rio de Janeiro, foi educada inicialmente por seu pai Tavares de Lyra, que, segundo Sophia ensinava: “brincando e educando”, ou “aproveitava a vida cotidiana para tudo esclarecer, diretamente”. Ou ainda, durante os passeios em família, instruía a filharada apresentando os lugares históricos do Rio de Janeiro e indicando livros a respeito dos fatos.

Ainda criança, Sophia Lyra e os irmãos já sabiam citar diversos nomes ilustres ligados à história de cada Estado, bem como decorava e declamava versos nas reuniões familiares. Em março de 1908, entrou para o Colégio Notre Dame de Sion. No colégio, Sophia divide a carteira com a amiga Lúcia Miguel Pereira, futura escritora, biografa de Machado de Assis. Já adolescente, Sophia Lyra era convocada pelo pai apresentar críticas as conferências e discursos paternos.

Concluído o curso de humanidades, em 1918, Sophia A. Lyra manifestou seu objetivo de estudar arquitetura; Tavares de Lyra foi contra e proporcionou-lhe aulas particulares de Filosofia, História da Igreja, Idioma Nacional, Italiano, Inglês, Alemão, Francês, Desenho, Pintura, Piano, Solfejo, Canto, Harmonia, Gravura, Artesanato e Enfermagem Básica.

Em 08 de setembro de 1924, casou com o primo paterno Dr. Roberto de Lyra Tavares (*1902 +1982), filho do senador João de Lyra Tavares e de Rosa Amélia da Silva de Lyra Tavares (*1874 +1951), uma das “Rosas de Neves” descritas, tempos depois, por Sophia em seu livro. Seu marido, Roberto Lyra, foi ministro da Educação e Cultura de João Goulart, na fase parlamentarista de seu mandato, durante o gabinete de Brochado da Rocha. No início de sua carreira, Sophia Lyra desvendava-lhe os mistérios da língua Alemã, traduzindo textos que ele usava em suas defesas do júri.

Destas núpcias nasceram Sophia Rosa de Lyra Tavares (*1925 +1927), falecida infante, de pneumonia, alguns dias antes de surgir a penicilina, e Roberto de Lyra Tavares Filho (*1926 +1986), falecido solteiro, advogado, filosofo do direito, poliglota, poeta e tradutor que ao falecer era catedrático da Universidade de Brasília.

Em 1928, ao mesmo tempo em que cuidava do filho e auxiliava o marido nas traduções, Sophia Lyra dedica-se à pesquisa para preparação de trabalhos literários e históricos. Suas pesquisas pessoais levam-na a empreender viagens ao Uruguai, à Argentina e ao Chile. Posteriormente, vai à Europa e, na Itália, em Portugal e na França, aprofunda suas pesquisas.

O ano de 1957 marca o inicio de sua produção literária. Neste ano é lançado o livro: “Assis, Luminosa e Ardente Clareira de Paz”. Em 1958, retornou à Europa para aprofundar pesquisas em Portugal e na França. O mesmo ocorreu no ano seguinte, 1959, demorando-se mais em Portugal.

Sua bibliografia completa é composta das seguintes obras: Assis, luminosa e ardente clareira de paz (1958), O sétimo centenário de um terceiro franciscano – Dante Alighiere (1965), Igrejas de Portugal (1966), Natal à franciscana (1966), Madre Joana – A Angélica (1968), Tupi para Juristas (1969), Os franciscanos e as rosas (1970), O maior e o melhor dos Lyras (1973; 2 ed. 1974), Rosas de Neve: como eram as mulheres no começo do século (1974), Conquistas da mulher em todos os tempos (1976), São Francisco de Assis e o Brasil (1978), Vida íntima das moças de ontem (1980), Grandes Mulheres, 2 volumes, 2001-2003. Além desses livros, Sophia Lyra deixou trabalhos inéditos.

A professora Arisnete Câmara afirma que a importância da análise do livro: Vida íntima das moças de ontem “reside no seu aspecto histórico e memorialístico, através do qual a escritora constrói uma configuração, representando as tensões e os elos mutáveis de interdependência próprios da sociedade brasileira, durante o período investigado. Ou seja, evidencia os mecanismos que enunciam e representam os papéis da mulher na sociedade, fazendo sua própria história”.

Já o professor Roberto da Silva, analisando o livro Rosas de Neve: como eram as mulheres no início do século, destaca: “indo além dos limites aparentemente impostos pelo subtítulo desse livro, D. Sophia A. Lyra nos apresenta um vivo painel desse temps jadis. Em meio aos retratos das mulheres por ela vivificadas, d. Sophia nos informa, além da toalete, quais os tecidos, as cores da moda, as obras dos autores então em voga, como eram constituídos os currículos escolares, confrontando-os com o da época da elaboração do seu livro e apontando as respectivas vantagens e desvantagens, ela nos fala da música popular e da música erudita, de cantigas e de modinhas, dos artistas em evidência, dos repertórios teatrais, dos jogos infantis, dos folguedos (ela nos brinda com na marcação de uma quadrilha, nomeando, comme il faut, todos os movimentos em Frances), com detalhes”.

Aos 81 anos, em julho de 1984, Sophia Lyra visitou o Estado do Rio Grande do Norte, demorando-se nas cidades de Natal, Parnamirim e Macaíba. Na capital, percorreu várias instituições culturais acompanhada do então presidente da Fundação José Augusto, Valério Mesquita e da então prefeita de Macaíba, Odiléia Mércia da Costa. Em Parnamirim, foi a uma feira que reuniu no Parque Aristófanes Fernandes as prefeituras do RN com estandes mostrando seus artesanatos.

Na cidade de Macaíba reviu nossa família e esteve em nossa casa, e eu aos quatro anos tenho nítidas na memória, sua imagem sentada na sala de visitas revendo velhos álbuns familiares. Foi ao cemitério público visitar o túmulo dos seus avós Cel. Feliciano Pereira de Lyra Tavares e Maria Rosalina de Albuquerque Vasconcelos. Foi ainda na igreja matriz, na prefeitura, na câmara de vereadores e almoçou na residência de Valério Mesquita. Seu derradeiro compromisso no Estado foi visitar Luis da Câmara Cascudo, acompanhada de minha tia Joana, de mim e da sua secretária.

Em 17 de dezembro de 2004, consegui com a Câmara de Vereadores da Macaíba que a fizessem Cidadã Macaibense, o que foi um orgulho para ela, já aos 101 anos! Telefonou-me agradecendo e irmã Carmem Tavares de Lyra me escreveu com igual objetivo. Fui seu representante na sessão de recebimento do título. Hoje escrevo estas linhas para contribuir com a difusão de sua memória para nos tão cara.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ferreiro Torto - casa hereditária da família Moura

O coronel Manuel Teixeira Casado *1680 +1759 e sua esposa dona Rosa Maria Josefa, já residiam desde 1728 no sítio que denominaram Coité, visinho aos engenhos Ferreiro Torto e Jundiaí, configurando-se nos moradores mais antigos daquelas terras. Logo que se instalaram no engenho, fizeram doação do sítio Coité para a filha Maria Rosa Teixeira de Mello casada com o coronel de milícias Francisco da Costa e Vasconcelos, “falecido com mais de cem anos” a vinte e cinco de Maio de 1808, sendo estes os pais de dona Maria Angélica da Conceição de Vasconcelos, falecida em vinte e seis de Novembro de 1830 e que maridou-se no mesmo “sítio Coité aos vinte e cinco de fevereiro de 1802, as cinco e meia horas da manhã” com o coronel de infantaria miliciana Joaquim José do Rêgo Barros *1772 +1832, comandante de armas da capital, eleito para o Conselho Geral da Província em novembro de 1830, e que possuía a Ordem de Cristo. Fez parte do conselho do governo de 1824 a 1832, quando faleceu, sendo sepultado na capela de seu engenho Ferreiro Torto.

Foi o Coronel Joaquim José do Rêgo Barros quem ordenou a construção do casarão térreo setecentista que foi erguido sobre as ruínas da casa grande que serviu de quartel e alojamento ao terço dos paulistas. A casa era ampla, cercada de jardins e pomar, sendo bastante confortável. O Cel. Joaquim José vendeu o sítio Coité ao capitão Francisco Pedro Bandeira de Melo, ambos fizeram parte da junta governativa provincial. Joaquim José do Rego Barros passou a residir então no Ferreiro Torto, após sua esposa Maria Angélica ter recebido o famoso engenho por herança de seu avô cel. Manuel Teixeira Casado.

O coronel Joaquim José do Rego Barros reconstruiu ainda o porto que era utilizado frequentemente para seu deslocamento para a capital e para o transporte da cana de açúcar, além disso, reformou a capela dotando-a de um pequeno cemitério. Todo esse cenário era cercado por uma extensa mata e campos, os quais se alargavam pelas margens do Jundiaí as do Pitimbú.


Após a morte de seu reconstrutor, o engenho Ferreiro Torto coube de herança a sua filha dona Maria Rosa do Rêgo Barros Moura, senhora austera e de modos requintados, bem entendida de política, uma vez que era filha de um revolucionário e governador provincial e casada com um presidente de província. Maria Rosa faleceu em onze de novembro de 1853, casou-se aos 03 de julho de 1833 com toda pompa e honra com o poderoso coronel da Guarda Nacional Estevão José Barbosa de Moura *1810 +1891.


O Cel. Estevão foi uma das figuras dominadoras de outrora, expressão legitima da aristocracia rural, senhor de vinte fazendas de gado, suas terras enrolavam municípios inteiros atualmente. Engenhos, escravaria incontável, os melhores cavalos de sela, currais de pescaria, sua vontade era lei.


Como político, foi deputado provincial nos biênios de 1838-39. Três vezes administrou a província do Rio Grande do Norte por ordem de sua majestade imperial o senhor dom Pedro II, em 1841, 42 e 43, e como tal criou a comarca da maioridade, atualmente cidade de Martins.

D. Isabel Cândida de Moura Chaves, filha de Estevão e Maria Rosa, casada com o Dr. Francisco Clementino de Vasconcelos Chaves herdou o solar após o inventário do pai. Foi no Ferreiro Torto que d. Isabel Cândida deu a luz ao Dr. João Chaves. Em 1910 d. Suzana Teixeira de Moura comprou dos tios a propriedade Ferreiro Torto, vendendo-a ao comerciante Manuel Machado em 1914. Terminava ai então um elo que iniciou em 1728. Dai em diante o solar ficaria também conhecido por pertencer a famosa Viúva Machado - d. Amélia Duarte Machado, viúva de Manuel Machado, os quais jamais residiram no casarão.

sábado, 12 de junho de 2010

Onde se localizava o engenho Potengi?

Sede atual do antigo engenho Ferreiro Torto, em Macaíba. Foto: Itaércio Porpino.


Muitas vezes, ante a falta do documento comprobatório, temos as versões orais, advindas das tradições de nosso povo que ressurgem a cada relato que é transmitido por aqueles mais próximos aos acontecimentos às gerações mais recentes.


Quando em 1633, os holandeses desembarcaram no Rio Grande para a conquista sangrenta que se seguiu, não existiam como unidades administrativas as cidades de Macaíba e de São Gonçalo do Amarante. A antiga Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande jurisdicionava um vasto território, que albergava as ribeiras do Potengi, Jundiaí, Ceará-Mirim, Cajupiranga, Pirangi e Mipibu. Toda a ribeira do Potengi era então a cidade do Natal.


Sendo assim, onde estaria hoje o local do antigo engenho Potengi, espaço do primeiro grande massacre realizado pelos invasores holandeses, contra os portugueses ali refugiados?


O escritor Olavo de Medeiros Filho informa que no ano de 1798, era proprietário do engenho Potengi de São Gonçalo, o capitão Manuel Alves de Morais Navarro, solteiro, falecido a 11 de novembro de 1798, com idade de 59 anos. Mais adiante, lançou uma polêmica, apontando o escritor Manuel Nazareno Nogueira de Araújo, informa que o engenho Potengi é o mesmo que ficava a pouco passos da atual cidade de São Gonçalo do Amarante, em terras que pertenciam outrora, a Teófilo Alves, já falecido.

Ainda assevera Nogueira, citado por Olavo:


“Hoje, este engenho, já não existe. Suas ruínas foram vistas até a primeira década deste século. Seus derradeiros donos foram duas donzelas chamadas Fenomila e Esmeraldina Machado, descendentes de Estevão Machado de Miranda, que morreram na primeira década deste século, com mais de cem anos. Porém do engenho, o fim de suas moendas, ninguém tem notícia. Contam os antigos, que as ruínas do engenho Potengi serviram de morada a muitos que vinham em retirada do interior dos sertões na época das grandes secas. Seu último morador, quando as paredes e o teto do velho casarão já cediam ao rigor dos anos, foi um velho chamado Lourenço, (Ou Lourenço-que-ronca), como lhe apelidaram os meninos de rua”.


E arremata Olavo de Medeiros Filho em suas observações:


“O antigo engenho Potengi correspondia no começo deste século, ao engenho Santa Luzia da Floresta, pertencente ao Cel. João Pinheiro. Dista o mesmo cerca de 800 metros da cidade de São Gonçalo do Amarante/RN, à margem esquerda do rio Potengi. Até o ano de 1960, ainda existiam vestígios do prédio do antigo engenho Potengi”.


Entendo que o engenho Potengi, da cidade de São Gonçalo do Amarante deve realmente ter existido, sem sombra para dúvidas. Entretanto, se faz mister observar que sendo a cidade de São Gonçalo do Amarante, assim como Macaíba, margeadas pelo rio Potengi, seria natural que se edificassem nestes lugares engenhos e mesmo fazendas denominadas de Potengi.


Contudo, persistiria ainda a dúvida sobre a localização do antigo engenho Potengi, o segundo da então capitania e onde ocorreu o massacre dos portugueses. Sabemos que as terras do engenho Potengi originaram-se de uma sesmaria concedida pelo capitão-mor Manuel Mascarenhas Homem ao capitão-mor João Rodrigues Colaço em 1600.


Deste ponto adiante todos os historiadores do Rio Grande do Norte, iniciando por Augusto Tavares de Lyra, nascido em 1872, são unânimes ao afirmarem que o primeiro engenho do Rio Grande – o Potengi – ficava em terras pertencentes ao engenho Ferreiro Torto, de Macaíba. Senão vejamos:


“Nesse raio de seis a nove milhas não residiam mais de 120 a 130 campônios na sua maioria rústicos. Dois eram os engenhos existentes: um no Ferreiro Torto, de fogo morto, pela ruindade das terras, e o outro na várzea do Cunhaú”.


Mais adiante, destaca Tavares de Lyra:


“Sabido que na capitania só havia então dois engenhos – o Ferreiro Torto e o Cunhaú – e só tendo sido este último assaltado posteriormente, é fora de dúvida que os expedicionários se dirigiram ao primeiro. (...) esse engenho pertencia a Francisco Coelho (Ferreiro Torto é ainda hoje o nome de um engenho situado à margem direita do rio Jundiaí e à pequena distância de Macaíba), é possível que o primitivo engenho não tivesse sido construído no mesmo lugar do atual; mas devia ficar nas suas imediações. E ainda, Senhores de Natal e destruídos os núcleos principais de população, que eram os dois engenhos – Ferreiro Torto e Cunhaú. (LYRA, Augusto Tavares de).


Esclarece o historiador Hélio Galvão:


“(...) Na direção oposta, dia seguinte, vai o Major Cloppenburch com o Capitão Felior e o Capitão-Tenente Cornelius van Uxsel, e 200 soldados. Ia também Domingos Fernandes Calabar: não podia faltar. Em pequenas embarcações, Potengi acima, desembarcaram no local que o Diário da Expedição chama Passagem de Potigi, onde, por nada, mataram algumas pessoas e aprisionaram um ancião. Daí, por terra, dirigiram-se ao Engenho Ferreiro Torto, de Francisco Rodrigues Coelho, margem direita do rio Jundiaí. Numa passagem fechada pelo matagal foram inesperadamente atacados, perdendo quatro ou cinco homens. Os atacantes fugiram e Cloppenburch prosseguiu, andando três léguas, desde o ponto em que desembarcara. Um trecho pantanoso do caminho, já sendo tarde, impediu que atingissem o engenho, pelo que decidiram regressar à Fortaleza.


No engenho estavam abrigadas muitas pessoas. O Velho prisioneiro prestou informações confusas e imprecisas, que levaram os ocupantes à conclusão de que se organizava um foco de resistência, com esperados reforços da Paraíba e seu chefe parece ser Pero Vaz Pinto – remata o Diário.

Na verdade, saindo da Fortaleza, o Provedor da Fazenda Real se havia recolhido ao engenho do amigo, como ele antigo sesmeiros, dos primeiros povoadores da região. Era, depois do capitão-mor, a autoridade mais graduada presente na capitania. O engenho se transformara em abrigo dos moradores das cercanias e dos soldados dispensados do serviço, aterrorizados com as noticias que o ocupante deixava circular.


Não podia ficar, portanto, sem reprimenda válida aquela manifestação de rebeldia, nem impune essa ameaça potencial à estabilidade da conquista. A simples aviso de Calabar desceu Janduí com seus bandos ferozes para prestar o primeiro serviço, Calabar estava em plena forma. Os Tapuias se abateram sobre Ferreiro Torto e esmagaram literalmente os refugiados, em numero de sessenta. Francisco Coelho e toda a sua família, mulher e seis filhos, são trucidados.” (Galvão, Hélio).


Ainda sobre o tema destaca Câmara Cascudo:


“(...) o Major Cloppenburch, os capitães Felior e Uxeel seguiram em três grandes botes a vela, subindo o Potengi. Desceram em certo ponto, fazendo três léguas de marcha. Regressaram no dia seguinte. Haviam caído sobre um engenho, julgadamente o Ferreiro Torto. Francisco Coelho, seu proprietário, a mulher, cinco filhos e sessenta moradores sucumbiram”. (CASCUDO, Luiz da Câmara).


O Mons. Paulo Herôncio também apresenta sua versão sobre a questão:


“(...) Com alguns companheiros, Calabar demandou o sertão. Depois de alguns dias de viagem, o terrível emissário chegou às tabas. Procurando os caciques, parlamentou com eles, entregou-lhes presentes que os chefes holandeses lhes mandavam. E com eles acertou um ataque ao engenho de Ferreiro Torto.


Ao som das inúbias e sobraçando arcos e tacapes, 300 guerreiros tapuias desceram do sertão.
Para melhor se defenderem de qualquer ataque, os fugitivos de Natal se refugiaram no engenho de Francisco Coelho e ali ficaram aguardando os esperados auxílios da Paraíba.

Alguns dias depois daquele encontro com os holandeses, os refugiados de Ferreiro Torto foram surpreendidos por gritos ferozes seguidos de um cortar de setas pelo ar. O alarido aumentava à medida que se aproximavam. Eram os Janduís.


Os Tapuias! – gritaram todos, aterrorizados.


O sobressalto se espalhou em todos os semblantes. O espectro da morte pairou diante daquela gente, que não podia defender-se. Gritos de dor, abraços de despedida.


Açulados por Calabar, os bugres caíram sobre o engenho. Ninguém pôde fugir. Os que tentavam escapar ao tacape sentiam as flechas penetrarem-lhes as costas. Os gemidos dos moribundos eram abafados pelo berreiro infernal dos assaltantes. A matança foi terrível. Homens, mulheres e crianças, todos sacrificados com tanta crueldade e tanta hediondez que não é possível descrever.


Mais de 60 pessoas foram mortas. Entre elas, o proprietário do engenho, Francisco Coelho, com sua mulher e seus filhos. Ferreiro Torto marcava o início de um martírio de muitos anos. Aquela página de sangue era bem o programa de conquista dos novos senhores das terras do Rio Grande. (HERÔNCIO, Paulo)


O escritor Tarcísio Medeiros afirma que:


“(...) Para o interior, margiando o Potengi, Ferreiro Torto e Cunhaú foram os primeiros bangüês que acenderam fogos e produziram açúcar”. (MEDEIROS, Tarcísio).


Já o escritor Oswaldo Câmara de Souza descreve o Ferreiro Torto como:


“Não resta qualquer vestígio do primitivo engenho Ferreiro Torto, que ficava em certo ponto das margens do rio Jundiaí, nas imediações da cidade de Macaíba. Durante o domínio holandês foi ele invadido pelos flamengos, auxiliados pelos tapuias das ferozes tribos dos Janduís, cujo concurso invocaram”. (SOUZA, Oswaldo Câmara de).


Os historiadores mais recentes igualmente endossam a tese tradicional e coesa, como Sérgio Luiz Bezerra Trindade e Geraldo José de Albuquerque: “(...) Jacob Rabi (...), responsável pelas maiores atrocidades cometidas durante o domínio flamengo, algumas com características de genocídio, como foram nos engenhos de Cunhaú, Uruaçu e Ferreiro Torto”. (TRINDADE, Sérgio Luiz Bezerra; ALBUQUERQUE, José Geraldo de).


O escritor Antônio Soares de Araújo também se deteve na história do Ferreiro Torto:


“(...) A história de Ferreiro Torto registra um dos mais cruéis e sangrentos morticínios ocorridos na época da invasão holandesa. Na ordem cronológica, ele precedeu aos horripilantes dramas de martírio de que foram vitimas os moradores e refugiados de Cunhaú e Uruaçú”. (ARAÚJO, Antônio Soares de)


Arremato meus apontamentos destacando o que escreveu João Alves de Melo:


“Até a terceira década do século XVII, na época holandesa, em que se registraram as mais cruéis e sangrentas ocorrências, Ferreiro Torto foi testemunha dos horripilantes dramas de martírio de que foram vitimas Francisco Coelho, sua mulher, cinco filhos e sessenta moradores.


Rezam as lendas que, durante muitos anos, quem cruzasse as estradas ermas que levam ao velho casarão, em noites de luar, escutava gemidos dolorosos, queixas angustiadas, entrecortadas de soluços e choros dolentes de almas penadas, reminiscências evocativas do quadro de sacrifício e de tormento, ao qual servira de moldura o solar de Ferreiro Torto”. (MELO, João Alves de).


Por fim, o escritor Pedro Moura aponta de onde provém o nome de Ferreiro Torto ligado ao engenho Potengi:


“Esse primitivo engenho de Ferreiro Torto foi anotado por VINGBOONS no seu mapa n. 45; por ADRIANO VERDONK, em 1630, na Descrição das Capitânias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande, acrescentando que suas terras eram ruins, e, por MAURÍCIO DE NASSAU, em janeiro de 1638, chamando-o pela primeira vez de Engenho Potengi, decaído há longos anos, e diz-se que não tem terras capazes”.


Todos estes autores se basearam nos muitos relatos deixados pelos holandeses sobre a dominação da capitania do Rio Grande. Dentre estes relatos, os que se destacam pela aproximação de uma resposta para a ligação de Ferreiro Torto com Potengi, são seguramente os apontamentos de Vingboons e Verdonk, os quais apontam o engenho como sendo Ferreiro Torto. Os demais autores holandeses não destacam o nome do engenho. E Nassau quem chama-o de Potengi.


O engenho Potengi ficava em terras pertencentes ao Ferreiro Torto. É provável que a sede das casas construídas posteriores ao massacre de 1633 fosse em local diferente do primeiro núcleo, uma vez que ficara a lembrança do morticínio na imaginação religiosa dos colonos. O próprio Tavares de Lyra aponta essa tese. Mas, que de fato foi nos domínios de Ferreiro Torto, originário de semarias que albergava boa parte do trecho ribeirinho do Potengi e do Jundiaí que frutificou por pouco tempo o engenho Potengi.


Com base em tudo que foi exposto, não reconheço subsídios convencedores de que o Engenho Potengi fosse em São Gonçalo do Amarante e não em terras pertencentes ao engenho Ferreiro Torto, em Macaíba. Tenho sim, o relato da unanimidade os historiadores estaduais, e até internacionais a confirmarem a tradição histórica e documental que indica ser Ferreiro Torto o palco primeiro das atrocidades invasoras neerlandesas. É a tese que defendo e acredito até dilação probatória contrária comprovadora.