sábado, 12 de junho de 2010

Onde se localizava o engenho Potengi?

Sede atual do antigo engenho Ferreiro Torto, em Macaíba. Foto: Itaércio Porpino.


Muitas vezes, ante a falta do documento comprobatório, temos as versões orais, advindas das tradições de nosso povo que ressurgem a cada relato que é transmitido por aqueles mais próximos aos acontecimentos às gerações mais recentes.


Quando em 1633, os holandeses desembarcaram no Rio Grande para a conquista sangrenta que se seguiu, não existiam como unidades administrativas as cidades de Macaíba e de São Gonçalo do Amarante. A antiga Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande jurisdicionava um vasto território, que albergava as ribeiras do Potengi, Jundiaí, Ceará-Mirim, Cajupiranga, Pirangi e Mipibu. Toda a ribeira do Potengi era então a cidade do Natal.


Sendo assim, onde estaria hoje o local do antigo engenho Potengi, espaço do primeiro grande massacre realizado pelos invasores holandeses, contra os portugueses ali refugiados?


O escritor Olavo de Medeiros Filho informa que no ano de 1798, era proprietário do engenho Potengi de São Gonçalo, o capitão Manuel Alves de Morais Navarro, solteiro, falecido a 11 de novembro de 1798, com idade de 59 anos. Mais adiante, lançou uma polêmica, apontando o escritor Manuel Nazareno Nogueira de Araújo, informa que o engenho Potengi é o mesmo que ficava a pouco passos da atual cidade de São Gonçalo do Amarante, em terras que pertenciam outrora, a Teófilo Alves, já falecido.

Ainda assevera Nogueira, citado por Olavo:


“Hoje, este engenho, já não existe. Suas ruínas foram vistas até a primeira década deste século. Seus derradeiros donos foram duas donzelas chamadas Fenomila e Esmeraldina Machado, descendentes de Estevão Machado de Miranda, que morreram na primeira década deste século, com mais de cem anos. Porém do engenho, o fim de suas moendas, ninguém tem notícia. Contam os antigos, que as ruínas do engenho Potengi serviram de morada a muitos que vinham em retirada do interior dos sertões na época das grandes secas. Seu último morador, quando as paredes e o teto do velho casarão já cediam ao rigor dos anos, foi um velho chamado Lourenço, (Ou Lourenço-que-ronca), como lhe apelidaram os meninos de rua”.


E arremata Olavo de Medeiros Filho em suas observações:


“O antigo engenho Potengi correspondia no começo deste século, ao engenho Santa Luzia da Floresta, pertencente ao Cel. João Pinheiro. Dista o mesmo cerca de 800 metros da cidade de São Gonçalo do Amarante/RN, à margem esquerda do rio Potengi. Até o ano de 1960, ainda existiam vestígios do prédio do antigo engenho Potengi”.


Entendo que o engenho Potengi, da cidade de São Gonçalo do Amarante deve realmente ter existido, sem sombra para dúvidas. Entretanto, se faz mister observar que sendo a cidade de São Gonçalo do Amarante, assim como Macaíba, margeadas pelo rio Potengi, seria natural que se edificassem nestes lugares engenhos e mesmo fazendas denominadas de Potengi.


Contudo, persistiria ainda a dúvida sobre a localização do antigo engenho Potengi, o segundo da então capitania e onde ocorreu o massacre dos portugueses. Sabemos que as terras do engenho Potengi originaram-se de uma sesmaria concedida pelo capitão-mor Manuel Mascarenhas Homem ao capitão-mor João Rodrigues Colaço em 1600.


Deste ponto adiante todos os historiadores do Rio Grande do Norte, iniciando por Augusto Tavares de Lyra, nascido em 1872, são unânimes ao afirmarem que o primeiro engenho do Rio Grande – o Potengi – ficava em terras pertencentes ao engenho Ferreiro Torto, de Macaíba. Senão vejamos:


“Nesse raio de seis a nove milhas não residiam mais de 120 a 130 campônios na sua maioria rústicos. Dois eram os engenhos existentes: um no Ferreiro Torto, de fogo morto, pela ruindade das terras, e o outro na várzea do Cunhaú”.


Mais adiante, destaca Tavares de Lyra:


“Sabido que na capitania só havia então dois engenhos – o Ferreiro Torto e o Cunhaú – e só tendo sido este último assaltado posteriormente, é fora de dúvida que os expedicionários se dirigiram ao primeiro. (...) esse engenho pertencia a Francisco Coelho (Ferreiro Torto é ainda hoje o nome de um engenho situado à margem direita do rio Jundiaí e à pequena distância de Macaíba), é possível que o primitivo engenho não tivesse sido construído no mesmo lugar do atual; mas devia ficar nas suas imediações. E ainda, Senhores de Natal e destruídos os núcleos principais de população, que eram os dois engenhos – Ferreiro Torto e Cunhaú. (LYRA, Augusto Tavares de).


Esclarece o historiador Hélio Galvão:


“(...) Na direção oposta, dia seguinte, vai o Major Cloppenburch com o Capitão Felior e o Capitão-Tenente Cornelius van Uxsel, e 200 soldados. Ia também Domingos Fernandes Calabar: não podia faltar. Em pequenas embarcações, Potengi acima, desembarcaram no local que o Diário da Expedição chama Passagem de Potigi, onde, por nada, mataram algumas pessoas e aprisionaram um ancião. Daí, por terra, dirigiram-se ao Engenho Ferreiro Torto, de Francisco Rodrigues Coelho, margem direita do rio Jundiaí. Numa passagem fechada pelo matagal foram inesperadamente atacados, perdendo quatro ou cinco homens. Os atacantes fugiram e Cloppenburch prosseguiu, andando três léguas, desde o ponto em que desembarcara. Um trecho pantanoso do caminho, já sendo tarde, impediu que atingissem o engenho, pelo que decidiram regressar à Fortaleza.


No engenho estavam abrigadas muitas pessoas. O Velho prisioneiro prestou informações confusas e imprecisas, que levaram os ocupantes à conclusão de que se organizava um foco de resistência, com esperados reforços da Paraíba e seu chefe parece ser Pero Vaz Pinto – remata o Diário.

Na verdade, saindo da Fortaleza, o Provedor da Fazenda Real se havia recolhido ao engenho do amigo, como ele antigo sesmeiros, dos primeiros povoadores da região. Era, depois do capitão-mor, a autoridade mais graduada presente na capitania. O engenho se transformara em abrigo dos moradores das cercanias e dos soldados dispensados do serviço, aterrorizados com as noticias que o ocupante deixava circular.


Não podia ficar, portanto, sem reprimenda válida aquela manifestação de rebeldia, nem impune essa ameaça potencial à estabilidade da conquista. A simples aviso de Calabar desceu Janduí com seus bandos ferozes para prestar o primeiro serviço, Calabar estava em plena forma. Os Tapuias se abateram sobre Ferreiro Torto e esmagaram literalmente os refugiados, em numero de sessenta. Francisco Coelho e toda a sua família, mulher e seis filhos, são trucidados.” (Galvão, Hélio).


Ainda sobre o tema destaca Câmara Cascudo:


“(...) o Major Cloppenburch, os capitães Felior e Uxeel seguiram em três grandes botes a vela, subindo o Potengi. Desceram em certo ponto, fazendo três léguas de marcha. Regressaram no dia seguinte. Haviam caído sobre um engenho, julgadamente o Ferreiro Torto. Francisco Coelho, seu proprietário, a mulher, cinco filhos e sessenta moradores sucumbiram”. (CASCUDO, Luiz da Câmara).


O Mons. Paulo Herôncio também apresenta sua versão sobre a questão:


“(...) Com alguns companheiros, Calabar demandou o sertão. Depois de alguns dias de viagem, o terrível emissário chegou às tabas. Procurando os caciques, parlamentou com eles, entregou-lhes presentes que os chefes holandeses lhes mandavam. E com eles acertou um ataque ao engenho de Ferreiro Torto.


Ao som das inúbias e sobraçando arcos e tacapes, 300 guerreiros tapuias desceram do sertão.
Para melhor se defenderem de qualquer ataque, os fugitivos de Natal se refugiaram no engenho de Francisco Coelho e ali ficaram aguardando os esperados auxílios da Paraíba.

Alguns dias depois daquele encontro com os holandeses, os refugiados de Ferreiro Torto foram surpreendidos por gritos ferozes seguidos de um cortar de setas pelo ar. O alarido aumentava à medida que se aproximavam. Eram os Janduís.


Os Tapuias! – gritaram todos, aterrorizados.


O sobressalto se espalhou em todos os semblantes. O espectro da morte pairou diante daquela gente, que não podia defender-se. Gritos de dor, abraços de despedida.


Açulados por Calabar, os bugres caíram sobre o engenho. Ninguém pôde fugir. Os que tentavam escapar ao tacape sentiam as flechas penetrarem-lhes as costas. Os gemidos dos moribundos eram abafados pelo berreiro infernal dos assaltantes. A matança foi terrível. Homens, mulheres e crianças, todos sacrificados com tanta crueldade e tanta hediondez que não é possível descrever.


Mais de 60 pessoas foram mortas. Entre elas, o proprietário do engenho, Francisco Coelho, com sua mulher e seus filhos. Ferreiro Torto marcava o início de um martírio de muitos anos. Aquela página de sangue era bem o programa de conquista dos novos senhores das terras do Rio Grande. (HERÔNCIO, Paulo)


O escritor Tarcísio Medeiros afirma que:


“(...) Para o interior, margiando o Potengi, Ferreiro Torto e Cunhaú foram os primeiros bangüês que acenderam fogos e produziram açúcar”. (MEDEIROS, Tarcísio).


Já o escritor Oswaldo Câmara de Souza descreve o Ferreiro Torto como:


“Não resta qualquer vestígio do primitivo engenho Ferreiro Torto, que ficava em certo ponto das margens do rio Jundiaí, nas imediações da cidade de Macaíba. Durante o domínio holandês foi ele invadido pelos flamengos, auxiliados pelos tapuias das ferozes tribos dos Janduís, cujo concurso invocaram”. (SOUZA, Oswaldo Câmara de).


Os historiadores mais recentes igualmente endossam a tese tradicional e coesa, como Sérgio Luiz Bezerra Trindade e Geraldo José de Albuquerque: “(...) Jacob Rabi (...), responsável pelas maiores atrocidades cometidas durante o domínio flamengo, algumas com características de genocídio, como foram nos engenhos de Cunhaú, Uruaçu e Ferreiro Torto”. (TRINDADE, Sérgio Luiz Bezerra; ALBUQUERQUE, José Geraldo de).


O escritor Antônio Soares de Araújo também se deteve na história do Ferreiro Torto:


“(...) A história de Ferreiro Torto registra um dos mais cruéis e sangrentos morticínios ocorridos na época da invasão holandesa. Na ordem cronológica, ele precedeu aos horripilantes dramas de martírio de que foram vitimas os moradores e refugiados de Cunhaú e Uruaçú”. (ARAÚJO, Antônio Soares de)


Arremato meus apontamentos destacando o que escreveu João Alves de Melo:


“Até a terceira década do século XVII, na época holandesa, em que se registraram as mais cruéis e sangrentas ocorrências, Ferreiro Torto foi testemunha dos horripilantes dramas de martírio de que foram vitimas Francisco Coelho, sua mulher, cinco filhos e sessenta moradores.


Rezam as lendas que, durante muitos anos, quem cruzasse as estradas ermas que levam ao velho casarão, em noites de luar, escutava gemidos dolorosos, queixas angustiadas, entrecortadas de soluços e choros dolentes de almas penadas, reminiscências evocativas do quadro de sacrifício e de tormento, ao qual servira de moldura o solar de Ferreiro Torto”. (MELO, João Alves de).


Por fim, o escritor Pedro Moura aponta de onde provém o nome de Ferreiro Torto ligado ao engenho Potengi:


“Esse primitivo engenho de Ferreiro Torto foi anotado por VINGBOONS no seu mapa n. 45; por ADRIANO VERDONK, em 1630, na Descrição das Capitânias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande, acrescentando que suas terras eram ruins, e, por MAURÍCIO DE NASSAU, em janeiro de 1638, chamando-o pela primeira vez de Engenho Potengi, decaído há longos anos, e diz-se que não tem terras capazes”.


Todos estes autores se basearam nos muitos relatos deixados pelos holandeses sobre a dominação da capitania do Rio Grande. Dentre estes relatos, os que se destacam pela aproximação de uma resposta para a ligação de Ferreiro Torto com Potengi, são seguramente os apontamentos de Vingboons e Verdonk, os quais apontam o engenho como sendo Ferreiro Torto. Os demais autores holandeses não destacam o nome do engenho. E Nassau quem chama-o de Potengi.


O engenho Potengi ficava em terras pertencentes ao Ferreiro Torto. É provável que a sede das casas construídas posteriores ao massacre de 1633 fosse em local diferente do primeiro núcleo, uma vez que ficara a lembrança do morticínio na imaginação religiosa dos colonos. O próprio Tavares de Lyra aponta essa tese. Mas, que de fato foi nos domínios de Ferreiro Torto, originário de semarias que albergava boa parte do trecho ribeirinho do Potengi e do Jundiaí que frutificou por pouco tempo o engenho Potengi.


Com base em tudo que foi exposto, não reconheço subsídios convencedores de que o Engenho Potengi fosse em São Gonçalo do Amarante e não em terras pertencentes ao engenho Ferreiro Torto, em Macaíba. Tenho sim, o relato da unanimidade os historiadores estaduais, e até internacionais a confirmarem a tradição histórica e documental que indica ser Ferreiro Torto o palco primeiro das atrocidades invasoras neerlandesas. É a tese que defendo e acredito até dilação probatória contrária comprovadora.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Avião presidencial é batizado com o nome de Augusto Severo

Avião presidencial "Augusto Severo". Fonte: Aeronáutica.

Avião "Augusto Severo".

Avião presidencial "Augusto Severo".

As aeronaves batizadas de Augusto Severo e Bartolomeu de Gusmão, fazem parte de um conjunto de dois aviões Embraer 190, a ser incorporado à FAB para o transporte presidencial. As aeronaves substituirão os Boeing 737-200, conhecidos como "sucatinhas", que vem sendo usados no transporte do Presidente da República há mais de 30 anos.


O preço de cada aeronave, conforme disse o ministro da Defesa Nelson Jobim, foi de R$ 87 milhões. Sobre esse valor é acrescentado o custo do pacote de suprimentos, que é de R$ 37 milhões. O governo já pagou R$ 154 milhões à Embraer.


Os aviões que servirão ao Presidente da República são modernos, possuem tecnologia que asseguram aos passageiros uma viagem sem ruídos e redução do custo operacional. “O que é fundamental é que se trata de uma bandeira nacional chegando em qualquer lugar do mundo”, afirmou Jobim.


O Embraer 190 faz parte da família de jatos da Embraer batizados de E-jets. Há mais de 600 unidades dessa família voando em todo o mundo. As duas unidades a serem operadas pela FAB possuem capacidade para 54 pessoas, além de espaço privativo para o Presidente da República.

Mais uma significativa homenagem ao ilustre potiguar que pagou com a vida, o sonho iniciado nos morros de Guarapes, onde empinava pipas com seus alunos do Ginásio Norte-riograndense. Augusto Severo é sempre um nome lembrado nacionalmente. Pena ser ainda hoje desconhecido de seus conterrâneos.

sábado, 5 de junho de 2010

Professor João Tibúrcio

Professor João Tiburcio da Cunha Pinheiro

Busto do professor João Tibúrcio na entrada do Atheneu


Nascido no sítio “Suspiro” em Goianinha a 13 de maio de 1845, fez seus estudos com o famoso latinista, Padre Joaquim Severiano Ribeiro Dantas. Professor de latim concursado para o Assú, assumindo em 06-04-1869. Foi transferido para Natal em 15 de junho do mesmo ano, permanecendo nesta cidade até 13 de maio de 1927, quando foi posto em disponibilidade, ex-officio, com todos os vencimentos e adicionais; homenagem do governo aos seus 58 anos de magistério.

Ensinou Latim, Francês e Português no Atheneu Norte-riograndense, ininterruptamente, e assim que o afastaram da sala de aula, faleceu em Panelas, Macaíba a 24 de junho de 1928, era como se lhe faltasse o ar para respirar, longe da sala de aula e do convívio dos seus alunos.


Casou a primeira vez com Maria Rosa Moreira Castelo Branco (*1853 +1878), filha do Dr. Moreira Brandão e Ana Joaquina Teixeira de Moura, esta filha do Cel. Estevão Moura, senhor do Engenho Ferreiro Torto, em Macaíba. João Tibúrcio e Maria Rosa tiveram a seguinte prole: Leopoldina Augusta, solteira, Ana Krause, casada com o inglês John Krause, Maria da Glória, casada com Júlio Tinôco, Maria Rosa, casada com Joaquim Carlos Vieira de Melo, Leônidas Octávio e Asclepiades Cantalice, casado com Lenor Ferreira Pinheiro.


Enviuvando ainda jovem, João Tibúrcio casou com Josefa Emília da Cunha Pinheiro e dela teve Armando, Pompílio, Nathália e Helena.


Paralelamente ao ensino, destacou-se como político seguindo a orientação do sogro o Dr. José Moreira Brandão Castelo Branco, forte influência liberal nos tempos do império. João Tibúrcio foi deputado provincial nos biênios de 1878-79; 1880-81.


Dirigiu interinamente o Atheneu e a Instrução Pública em 1892 e 1893. Foi professor da Escola Normal de Natal no seu principio e ainda, primeiro suplente de juiz distrital e do juiz substituto federal, assumindo, por duas vezes, os cargos de juiz distrital e de direito de Natal.


Devido a sua compostura, assiduidade e competência, foi tido como o professor modelo, e como tal, teve seu busto em bronze inaugurado na pracinha vizinha ao antigo prédio do Atheneu, na avenida Junqueira Ayres, seu local de trabalho por onze lustros. A homenagem se deu no dia do professor de 1928. Atualmente este busto se encontra na entrada do Colégio Estadual Atheneu, em Petrópolis.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A primeira Mangueira Rosa e a Palmeira Imperial d'A República

Villa Barreto onde foi plantada a primeira mangueira rosa de Natal. Foto Manoel Dantas



A primeira mangueira rosa de Natal foi plantada por Ignez Barreto de Albuquerque Maranhão (*1858 +1932), irmã de Pedro Velho, de Augusto Severo e de Alberto Maranhão, entre outros. Ignez Barreto foi juntamente com seu marido Juvino Barreto os incentivadores de vários melhoramentos da cidade do Natal, dentre os quais podemos destacar: a fundação do Colégio Imaculada Conceição, Colégio Salesiano São José, Hospital de Caridade Juvino Barreto e Instituto Juvino Barreto.

D. Ignez plantara em sua residência – a Villa Barreto – na Ribeira, entre 1910-11. Antes, segundo Câmara Cascudo, "de 1911, a manga rosa era verdadeira raridade, disputada e relativamente cara. Vinham do Recife. Um presente de manga rosa significava uma homenagem de bom gosto e de recursos".

Ainda segundo Câmara Cascudo, "depois de 1914, os proprietários das chácaras do Tirol, Petrópolis e Alecrim passaram a plantar mudas de mangueira rosa. Esse evento merecia toda a atenção da sociedade local, era o indicativo de como Natal estava no caminho da civilização, sendo o ato amplamente noticiado pela imprensa local".

A primeira manga rosa era destinada ao consumo do governador e do bispo, respectivamente. Quem plantava disputava os tamanhos e ausências de nódoas. Alguns exemplares ficavam em exposição no balcão da A República.


Assim, as mangas rosas progrediram de presente caro e de bom gosto no seu início em Natal, para em 1918 popularizar-se através da sua comercialização no mercado público municipal da avenida Rio Branco.


Na confluência da rua Cel. Juvino Barreto com a avenida Câmara Cascudo, observo o palacete de Pedro Velho, antiga sede do jornal A República, e vislumbro em seu jardim a planta mais preciosa por sua antiguidade, história e por tudo que ela presenciou, guardando segredos e confidências esvaecidas na voragem do tempo.

O Cel. Juvino Barreto deu-a ao cunhado Pedro Velho, retirando-a da valiosa coleção da Villa Barreto, a primeira em Natal. Augusto Severo, apaixonado como era pelas plantas, plantou-a ante a residência do irmão em 1900. No ano seguinte, Juvino Barreto faleceu. Em 1902, Severo encantou-se por um sonho, em Paris. Era o próprio Pedro Velho que pela manhã, ainda de chambre, regava a palmeira, fazendo-o até 1907 quando faleceu.

A viúva do líder, D. Petronila Pedroza Maranhão, mudou para a fazenda Solidão, no Tirol, tentando amenizar as lembranças do marido e esquecer os desgostos dos filhos. O velho solar dos Albuquerque Maranhão passou a ser a sede d’ A República. Depois, foi repartição pública sediando a chefia de polícia e hoje Diário Oficial. E a palmeira imperial foi sendo gradativamente esquecida. 

sábado, 29 de maio de 2010

Francisco Pinto de Abreu - educador

Dr. Pinto de Abreu. Acervo Anderson Tavares



Nasceu na Paraíba e se formou em direito pela Faculdade de Direito do Recife, em 1892, na turma de Alberto Maranhão e Augusto Tavares de Lyra. Logo após formado, desempenhou em Pernambuco os cargos de promotor público nas cidades de Cabo e Recife, curador geral de órfãos desta cidade, juiz distrital em Olinda.


Veio para o Rio Grande do Norte em 1895, convidado por Augusto Tavares de Lyra, sendo indicado pelo amigo ao governador Pedro Velho que o nomeou diretor da Instrução Pública Estadual e do Atheneu, de onde saiu para ser juiz de Direito da comarca do Ceará-Mirim, voltando a dirigir o Atheneu e a Instrução Pública outras vezes.


Destacou-se na política educacional do Estado do Rio Grande do Norte como o gestor que reorganizou o ensino em moldes modernos, na segunda administração de Alberto Maranhão, de cujo governo também foi secretário, ocupando também o cargo de consultor jurídico do Estado, em 1914, no fim da referida administração. Foi advogado com escritório na rua 13 de maio (Princesa Isabel), professor e deputado estadual no Rio Grande do Norte, na sexta legislatura de 1904-05-06. Também foi acionista do Banco do Natal, fundado por Tavares de Lyra em 1905.


Convidado pelo governador Joaquim Ferreira Chaves para continuar no cargo de consultor jurídico, aceitou a princípio, renunciado em 1918 quando do rompimento político entre Ferreira Chaves e Tavares de Lyra. O Dr. Pinto de Abreu tomou partido de Augusto Tavares de Lyra e retornou ao Recife, onde foi nomeado secretário geral do estado pelo governador José Rufino Bezerra (1917-1921), cargo em que ficou até o fim dessa administração. Nesse período também exerceu a advocacia e lecionou em vários colégios daquele Estado.


O hino à Augusto Severo é de sua autoria, em parceria com Eulália Câmara. Fez parte de inúmeras associações culturais na cidade do Natal, entre as quais: Natal Clube, IHGRN e Grêmio Literário Augusto Severo. Escreveu para a “Revista do Rio Grande do Norte”, para a “Tribuna” e A República.


Casou em 1912 com a senhora d. Maria Zuzana Teixeira de Moura, de ilustre família potiguar, senhora hereditária do engenho Ferreiro Torto, em Macaíba, onde moravam. Maria Suzana faleceu em 1942, sem prole deste casamento. Francisco Pinto de Abreu retornou à Pernambuco e realizou um terceiro matrimônio do qual deixou filhos, tendo falecido em Recife no dia 11 de junho de 1951.


Segundo a revista do Centro Polymathico do Rio Grande do Norte, em sua edição numero 1 de janeiro de 1920, o Dr. Pinto de Abreu foi:


"Professor de vocação assinalada; pedagogista consumado no afanoso trato dos bons livros e na prática do ensino onde se revelou verdadeiro líder pelo impulso que lhe deu, vasando-o nos moldes contemporâneos que a última reforma não alterou, felizmente, nas linhas gerais; hábil e consciencioso advogado para quem mais vale a justiça que o interesse material da causa".

Era o que pensava a elite intelectual do RN sobre o homem que ousou transformar radicalmente a educação no Estado, um sonho acalentado junto com Alberto Maranhão, que, na medida do possível, conseguiram efetivar através da criação da rede de grupos escolares.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Segunda edição do livro A Família Ribeiro Dantas de São José de Mipibú

Capa da 1º edição do livro de Carlos Alberto Dantas Moura.


O meu amigo e confrade de Instituto de Genealogia, Carlos Alberto Dantas Moura, um dos pioneiros da pesquisa genealógica no RN, lança a segunda edição de seu livro genealógico e histórico: Família Ribeiro Dantas de São José de Mipibu, que vem a lume 25 anos após a primeira, publicada em Brasília. Nela o autor incorpora informações de outros livros de genealogia (principalmente de Famílias do Seridó, de Olavo Medeiros Filho e Villar & Cia 2, de Alcides Vilar. Os dois capítulos finais do livro Moreira Brandão, de meu tio paterno José Moreira Brandão Castelo Branco Sobrinho, geraram três apêndices do capítulo VIII : A-6.1) A descendência de Jerônimo Cabral da Câmara Filho, onde o material que ocupava apenas uma página foi expandido para onze, por causa das atualizações; A-6.2) A disposição do material sobre os Moura do RN na nomenclatura genealógica de filhos, netos, bisnetos, trinetos e tetranetos, com acréscimos e correções obtidos nos livros paroquiais de Natal; A-6.3) Descobertas sobre os Castelo Branco nos livros de São José de Mipibu.

Vários assentamentos antigos foram descobertos, documentando melhor a parte mais antiga da família, tanto pelo autor como por colegas genealogistas, aos quais foram dados os merecidos créditos.

Foi feita uma tentativa, com razoável sucesso, de estabelecer uma relação genealógica com os outros Dantas do Rio Grande do Norte, como os Dantas Correia do Seridó e os Dantas do Ceará-Mirim, que são primos dos do Seridó e dos de São José de Mipibu, com os Ribeiro Dantas.

Alguns capítulos foram ampliados com a ajuda de familiares dedicados, outros ficaram no mesmo estado, pelo desinteresse de parentes que foram consultados e não responderam.

Um apêndice sobre os Andrades Lima de Macaíba foi acrescentado, com base nas pesquisas do historiador e genealogista Anderson Tavares, e outro sobre os Azambuja do RS, colaboração de Helena Dantas Campello. A genealogia dos Tavares Guerreiro, que têm ligações com os Ribeiro Dantas e os Salles, foi bastante ampliada. Um capítulo dedicado aos Salles e aos Duarte de São José de Mipibu já existia na primeira edição.

Um novo capitulo (XII) foi escrito sobre os Messeder, família da esposa do autor, e de autoria de Octavio Henrique Coelho Messeder, com a contribuição de alguns primos para as gerações mais recentes.

Finalmente, um bom número de fotografias antigas foi anexado, com fotos dos álbuns de parentes zelosos das tradições familiares. Com estes acréscimos, o número de páginas da primeira edição mais que quadruplicou nesta segunda.

A escolha inicial de um meio da informática (DVD) para o lançamento foi feita motivada por seus custos muito mais baixos, o que não elimina uma futura edição em papel.


Carlos Alberto Dantas Moura possui uma ligação genealógica com a cidade da Macaíba; é descendente direto do Cel. Estevão Moura - senhor hereditário do Solar Ferreiro Torto e sobrinho do major Andrade - Antônio de Andrade Lima, chefe oposicionista em Macaíba, durante a República Velha.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Foi a 12 de maio lá na França...

O engenheiro Reis, Severo e Sachet, em Paris no dia 12 de maio de 1902, antes de elevar-se para a glória. (Foto: acervo Anderson Tavares)


“Foi a doze de maio lá na França.
Era puro e sereno azul do céu
Flutuava o PAX nas asas da bonança
A glória conduzindo ao céu troféu”.

Esses versos, hoje desconhecidos e pouco cantados pelas pessoas de Macaíba, rememoram o vôo do balão PAX, no dia 12 de Maio de 1902, na França. Naquela manhã, após anos de experiências, o macaibense Augusto Severo de Albuquerque Maranhão apresentava seu invento ao mundo.


Augusto Severo é hoje um homem cultuado pelo Brasil e pelo mundo, por conta de sua determinação e de sua ousadia. Ninguém o ajudou financeiramente. Muito embora como Deputado Federal, conseguisse verbas para ajudar nas experiências de Santos Dumont. Pobre, teimoso, morreu justamente porque o dirigível foi construído com material frágil, sem resistência.


Até bem poucos anos, tínhamos o 12 de maio como feriado votivo para nos lembrar o martírio do homem, o fim de um sonho e a sua glória. Comemorava-se festivamente com missas, com alunos indo ao obelisco depositar flores e fazer orações. Infelizmente, com o tempo, a data foi suprimida de nosso calendário devocional. As missas são raras, não há alunos, não há canções, não há orações. O obelisco ostentando a efígie grave de Severo observa solitário a correria do dia-a-dia agitado.


Na França, existe uma “rue” Augusto Severo. No local da queda de Severo existe hoje uma placa de mármore com os seguintes dizeres: “Ici sont morts victimes de la science SEVERO aeronaute bresilien et de son mécanicien français GEORGE SACHÊT Chute du dirigible PAX - Av du Maine. Le 12 mai de 1902", cujo significado é “Aqui morreram vítimas da ciência SEVERO aeronauta brasileiro e seu mecânico o francês SACHET”.



Todas as capitais brasileiras ostentam ruas ou avenidas com seu nome. O avião presidencial recebeu recentemente o nome de Augusto Severo, em reconhecimento pela sua importância para a aeronáutica.


Em Natal, no dia 12 de maio de 1913, por ocasião do 11º aniversário da sua morte, foi inaugurada a magnífica estátua de Augusto Severo. É o patrono ainda de uma escola estadual e do aeroporto internacional do Rio Grande do Norte, bem como de uma das cadeiras da academia de letras do RN.



E em Macaíba? São poucas as homenagens a este filho tão ilustre. Um obelisco de 1941, um clube transformado em centro de convivência e uma pequena escola do município, funcionando numa sala do lar celeste “Auta de Souza”.



Tendo em vista a proximidade de mais um 12 de maio, cujo ano assinala os 108 anos do acidente com o balão PAX, recorremos a sensibilidade de nossa Câmara Municipal, no sentido de tornar o 12 de Maio feriado novamente, para que fique gravada na memória da cidade o exemplo corajoso de um macaibense que ousou sonhar e elevar além dos limites de seu país, o nome de sua terra. A imortalidade do herói, e a sua humanização.

Hino de Augusto Severo

Letra do Dr. Francisco Pinto de Abreu

Música de Eulália Câmara


Hino de Augusto Severo.
Foi a 12 de maio lá na França
Era puro e sereno azul do céu
Flutuava o PAX nas asas da bonança
A glória conduzindo ao céu troféu (bis)

Auri-Verde Pavilhão
E a popa do balão (bis)

Belo sonho de amor e liberdade
A grandeza da Pátria o mundo inteiro
Paz e concórdia a toda humanidade
Proclama a voz de Augusto brasileiro (bis)

Auri-Verde Pavilhão
E a popa do balão (bis)

Houve um rastro de luz pelo horizonte
Um soluço de dor aos ares corre
Águia rolou do pícaro do monte
No coração da história não se morre (bis)

Auri-Verde Pavilhão
E a popa do balão (bis)

domingo, 9 de maio de 2010

Colégio Imaculada Conceição - CIC





Em 1895, desembarcou em Natal o Sr. William Porter e sua mulher Catarina Hull, protestantes que estabeleceram o jornal “O Século” já em 1895 para divulgar sua doutrina. No ano seguinte fundaram a primeira igreja Presbiteriana de Natal, seguido do Colégio Americano (1896-1909).


Tendo em vista a rápida expansão das atividades protestantes na capital, o bispo da Paraíba, Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, a cuja jurisdição eclesiástica pertencia o Rio Grande do Norte, empreendeu uma visita pastoral ainda em 1895, com o objetivo de estimular a criação de dois estabelecimentos de ensino religioso para a educação feminina e masculina.


Dom Adauto solicitou a Madre Trajassi superiora geral da Congregação das Irmãs de Santa Dorotéia, residente em Roma, que ordenasse à província do Recife que abrisse um Externato em Natal.


Partiram do Colégio de São José, no Recife, Madre Luíza Lucenti, Madre Maria das Dôres Lyra e a irmã Severina Melo. As irmãs se estabeleceram, inicialmente, numa casa situada nas imediações da Igreja do Rosário. O “diário” da casa fala da doação do terreno do Rosário, por ato de Dom Adauto Aurélio, onde deveria ser construído o colégio ou externato.


O governador Alberto Maranhão através da Lei nº 153 de 02 de setembro de 1901, concedeu um prédio do governo, situado na avenida Rio Branco (Liceu Industrial) por até 10 anos, para a instalação do colégio.


Com a benção de uma capela, seguida das demais instalações, no dia 22 de fevereiro de 1902 as irmãs participaram da celebração da missa de fundação do Colégio da Imaculada Conceição.

Na missa o Bispo D. Adauto foi acolitado pelo pároco do Natal – Pe. João Maria, pelo Pe. José Thomás Gomes da Silva, secretário do bispado, Pe. Agnello Fernandes, Coadjutor de Ceará-Mirim e pelo Pe. José de Calazans Pinheiro. A Eucaristia contou com a participação da fina flor da sociedade natalense.


Os senhores João Galvão, Angelo Roselli, Antônio Rodrigues Viana e Filadelfo Lira, comerciantes e industriais, juntamente com as senhoras d. Ignês Barreto, Sofia Tavares de Lyra, Petronila Maranhão e Ignês Maranhão fizeram importantes doações que serviram para a compra da mobília, do piano e de outros moveis para a efetivação do educandário.


O padre João Maria foi nomeado diretor espiritual e o padre José Calazans Pinheiro capelão do colégio.


No mesmo dia 22 de fevereiro de 1902, foi aberta as matriculas que excedeu à expectativa de todos. As aulas tiveram inicio no dia 01 de março e logo se constatou a necessidade de ampliação das instalações da casa.


Com o objetivo de adquirir um lugar definitivo para o estabelecimento das atividades educacionais, as irmãs Dorotéias venderam por seis contos de réis, o terreno perto da igreja do Rosário, tendo sido juntado ao montante mais cinco contos doados por d. Ignês Barreto, dinheiro com o qual as irmãs compraram o sítio Cucuí, localizado na então distante avenida Deodoro, pertencente ao Dr. Oliveira Santos e que era “toda murada, bem arborizada, com uma cacimba onde se bebia a melhor água da cidade, que era puxada por um moinho”.


Para a construção do prédio central do colégio, as irmãs contaram com um empréstimo de três contos de réis provenientes do bispo Dom Adauto, seguido de mais uma doação da viúva Ignês Barreto no valor de quatro contos e de um empréstimo da Superiora do Pará de seis contos. Os trabalhos de construção foram dirigidos pelo Cônego Joffili.


Finalmente, no dia 24 de junho de 1906, as alunas, suas famílias, as irmãs de Santa Dorotéia e o povo de Natal, em uma bonita procissão onde se cantavam louvores a Imaculada Conceição, se dirigiram para o novo estabelecimento.


Esse prédio de 1906 foi demolido em 1937 para construção de um espaço que pudesse albergar o crescente número de alunas. A construção foi realizada pouco a pouco até ser concluída em 1942. É o prédio que conhecemos hoje.


Principiando o projeto educativo, o Colégio Imaculada Conceição esteve voltado, num primeiro momento, apenas para o público feminino, em regime de externato e internato. O segundo momento acontece a partir da abertura de matriculas, em 1972, para o público masculino, no caso irmãos das alunas do colégio. Tendo sido também a primeira escola religiosa, da cidade do Natal, a permitir a matricula de uma aluna casada.


Hoje, aos 108 anos, o Colégio Imaculada Conceição continua sua missão de abrir caminhos com uma proposta educativa de evangelizar através da educação, formando o cidadão pleno, despertando tanto no aluno quanto no professor a consciência crítica para fazê-lo capaz de participar das mudanças sociais à luz da fé e do evangelho.




quinta-feira, 29 de abril de 2010

João de Lyra Tavares - patrono da contabilidade brasileira

João de Lyra Tavares (Foto: acervo Anderson Tavares)

O criador do Dia do Contabilista, João de Lyra Tavares, nasceu em 23 de novembro de 1871, na cidade de Goiana/PE, e faleceu em 30 de dezembro de 1930, no Rio de Janeiro onde era . Era o terceiro filho de Feliciano de Lyra Tavares e Maria Rosalina de Albuquerque Vasconcelos. Aos três anos de idade segue com sua família para o Rio Grande do Norte, estabelecendo-se na cidade de Macaíba.

Viveu a infância e adolescência em Macaíba, onde se fez abolicionista e republicano, além de orador inflamado nas diversas passeatas cívicas de então. Editou vários boletins políticos e foi correspondente de A República.


Foi guarda-livros e chefe de escritório das firmas Lyra Tavares e Fabrício & Cia. Como comerciante, teve uma atuação destacada em Pernambuco, onde fundou uma Associação de Guarda-Livros e foi membro da Associação Comercial do Recife, residindo naquele Estado entre os anos de 1895 a 1902.


Viajou para a Paraíba, onde residiu de 1902 a 1914, foi eleito deputado estadual sendo o relator da despesa e receita do Estado. Possuiu comercio e escrevia para os jornais mais importantes daquele Estado, além de ser professor.


Atuou na política, foi historiador e economista, autor de obras didáticas e estudioso de geografia. Em 1914, a convite do então ministro Rivadávia Corrêa, esteve, pela primeira vez, na cidade do Rio de Janeiro, na época capital da República, onde tomou parte da Comissão escolhida para estudar a reorganização da Contabilidade do Tesouro Nacional.


No ano seguinte, João de Lyra Tavares foi eleito Senador pelo Rio Grande do Norte, cargo que ocupou até o fim de sua vida. No Senado, foi membro eminente da Comissão de Finanças e sempre ressaltou os benefícios que a sociedade brasileira teria com o reconhecimento de uma classe de contadores públicos.


Em 1926, no almoço feito em sua homenagem pelas Entidades Contábeis Paulistas, João de Lyra Tavares foi aclamado Presidente do Supremo Conselho da Classe dos Contabilistas Brasileiros. Na ocasião, fez um discurso defendendo a criação do Registro Geral dos Contabilistas Brasileiros, marco decisivo para o processo de organização dos Contabilistas em bases profissionais, que culminou com a criação do sistema CFC/CRC's, ocorrida 20 anos depois.


O Conselho Federal de Contabilidade e os sindicatos dos contabilistas (sendo “contabilista” profissão declarada como inexistente pelo STJ no RE sp nº112.190/RS, pois não existe o diploma de “contabilista”) defendem que o Dia do Contabilista foi instituído em 1926 pelo Senador João Lyra Tavares, o qual, no dia 25 de abril, no Hotel Terminus, em São Paulo, como forma de agradecimento às homenagens que lhe prestavam os profissionais da Contabilidade, teria, em dado momento de seu discurso, afirmado: “Trabalhemos, pois, tão convencidos de nosso triunfo, que desde já consideramos 25 de abril, o Dia dos Contabilistas Brasileiros.”


O que se escrevia e propagava à época era sobre a necessidade de se ensinar e estudar os fundamentos contabilísticos nas escolas, de se estudar Contabilidade. Não se usava, então, o termo “contabilista”, e, sim, “contabilístico”, pois assuntos “contabilísticos” ou “contábeis” eram sinônimos.


Isso porque, no Brasil, só se ensinavam técnicas de escrituração contábil na escola prática de Contabilidade.O aluno não estudava as funções contabilísticas, suas causas e seus efeitos. Ele aprendia a fazer, sem ter muita noção sobre o que estava fazendo. O Senador João Lyra Tavares defendia o ensino contabilístico e a regulamentação dos profissionais práticos em Contabilidade. Como conquista, um de seus objetivos foi concretizado: o ensino.

Em 1926, no dia 28/05, um mês e três dias após o discurso, através do Decreto Federal nº 17.329, foi criada primeira escola oficial com o objetivo de ensinar Contabilidade: a Escola de Comércio. É importante que se deixe aqui registrado que existiam, antes de 1926, escolas não oficiais, que ensinavam o aluno a praticar os registros contábeis. A primeira escola a exercer essa função foi criada em 1902, e, em 1905, os diplomas expedidos por essa escola foram reconhecidos como oficiais pelo Decreto Federal nº 1.339, de09/01/1905.


Para o Senador, não bastava somente oficializar o ensino, mas era necessário, também, estabelecer os direitos e as obrigações dos profissionais que trabalhavam com a Contabilidade.
Assim, em 30/06/1931, o Brasil organizou, através do Decreto Federal nº 20.158, o seu ensino comercial, e, por meio desse decreto, foram criados diversos cursos; entre eles, o de guarda-livros e o dos peritos-contadores.


Em 22/09/1945, foi criado o Curso de Ciências Contábeis, curso universitário cujos profissionais são intitulados “contadores”, aos quais os antigos peritos-contadores foram equiparados; e, em 28/04/1958, através da Lei 3.384, os guarda-livros passaram a ser chamados de “técnicos em Contabilidade”.


Sendo assim, tudo que o Senador Lyra Tavares defendeu acabou por se concretizar. Por isso, ele recebeu, com justiça, o título de “Patrono da Contabilidade Brasileira”. Hoje é nome da maior condecoração emanada do Conselho Federal de Contabilidade: Medalha de Mérito Contábil "João Lyra".


Agora, questionem conosco: Como poderia um Senador da República, em 1926, defender o dia 25 de abril como o Dia do Contabilista, se a profissão de guarda-livros (técnico em Contabilidade) foi criada em 1931, e a de Contador somente em 1945? É por isso que ele defendia a Contabilidade ou o ensinamento dos fundamentos e normas contabilísticas, e não o profissional “contabilista”. Ele não se referiu, então, à profissão de “contabilista”, mas, sim, à profissão de Contabilidade.


O termo “contabilista” só foi introduzido na legislação brasileira em 1943, na CLT, e, em 1945, no Decreto – Lei nº 9295/46, como sinônimo de “contabilidade” ou de “campo profissional”, atuação essa exercida pelos técnicos em Contabilidade, profissional de ensino médio-técnico, e pelos contadores, profissionais de ensino universitário.


O próprio Conselho Federal de Contabilidade, em 19/05/1958, conforme publicação feita no DOU, na página 11.455, ao aprovar a Resolução nº 14, de 10/05/1958, quando o “guarda-livros”passou a ser denominado “técnico em Contabilidade”, diz: “A profissão de Contabilidade, de que trata o art. 2º, do Decreto-Lei nº 9295, de 27/05/1946,compreendendo duas categorias: Contador e técnico em Contabilidade”.


Portanto, em 25 de abril comemora-se o Dia da Contabilidade, e não o Dia do Contabilista, pois, em 1926,esse profissional sequer existia, como também não existe até hoje.


Publicamos a seguir, na íntegra, o discurso do Senador João de Lyra Tavares realizado no Hotel Términus, em 1926:


“Quando, em 1916, justifiquei, no Senado Federal, a conveniência de regular-se o exercício de nossa profissão, acentuando a merecida e geral confiança que adviria do abono da classe, pelos seus mais circunspectos representantes, a capacidade moral e técnica dos contadores foi o grande e saudoso mestre paulistano, uma autoridade sem equivalente no Brasil, como bem o disse Amadeu Amaral, quem me endereçou os primeiros e os mais desvanecedores protestos de apoio e de solidariedade. E não se limitou a isso Carlos de Carvalho. Foi além na sua estimulante e confortadora bondade.


O tratadista, contínua e respeitosamente citado por afamados escritores estrangeiros, antes que os leigos pressentissem a obra de senso e cultura surpreendentes, que a nós iluminava e apareceria predestinado a um fulgor de constelação em nossa publicística, tornou a si a defesa de minha sugestão e realizou imediatamente uma importante conferência divulgada na íntegra pela adiantada imprensa desta cidade.


Devo particular gratidão à sua inesquecível memória pelos conceitos excessivamente benévolos com que então me atribuiu serviços à classe de que se constituíra, pela ação tenaz e feliz, a figura suprema em nossa Pátria e, pela bibliografia fecunda e reputada, a inconfundível sumidade do contabilismo brasileiro.


Bastará conhecer, mesmo sucintamente, fases de sua laboriosa existência para imaginar-se a grandeza dos seus merecimentos, que os nossos colegas paulistas documentaram nos largos traços biográficos publicados na Revista Brasileira de Contabilidade. Ainda simples coletor no interior, Carlos de Carvalho revelara tão extraordinárias aptidões que foi chamado à direção da Contabilidade do Tesouro de São Paulo.


Os seus triunfos nesse alto cargo marcam conquistas de que irradiaram benefícios inestimáveis à ordem financeira em vários estados da União.


É assim que a escrituração por partida dobrada, que ele ali instituiu, em harmonia com a escola italiana, foi em seguida adotada por Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná, conforme as suas instruções aos emissários dos respectivos governos e aos do governo da República que, em 1914, resolveu estabelecê-lo também no Tesouro Nacional.


Atendendo ao apelo da Prefeitura desta cidade, então dirigida pelo Washington Luiz, que resolvera reorganizar a Contabilidade Municipal, Carlos de Carvalho delineou o plano dessa remodelação e esclareceu, com as luzes do seu saber e da sua experiência, o processo a utilizar-se. Contribuiu, assim, para que o presidente eleito da República deixasse, entre os benefícios de sua exemplar visão, aquela reforma efetuada nos moldes da do Tesouro do Estado.


Não se adstringiu ao que, pessoal e diretamente fez, o concurso de Carlos de Carvalho para o aperfeiçoamento da contabilidade no Brasil. Transformou em verdadeiros mestres, estudiosos discípulos, que foram reclamados pelo Governo Central e pelos daquelas unidades federativas, reconhecendo todos a excelência dos serviços que prestado à implantação dos modernos preceitos contábeis nos negócios públicos.


Feitos semelhantes constituem privilégios dos espíritos eleitos e não poderão ser aquilatados pelos ecos de aclamações efêmeras, que passam com as impressões superficiais do momento. Só o tempo os consagra em definitivo. Foi o que sucedeu com Carlos de Carvalho, cuja ação social e úteis e duradouras realizações se avolumam e crescem no correr dos anos, recomendando seu nome á estima e admiração de todos os brasileiros.”

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Inauguração de galeria no Ministério Público do RN


No último dia 15, na sede da Procuradoria Geral de Justiça do Estado do RN, foi inaugurada a Galeria dos Corregedores Gerais, e reinaugurada a dos Procuradores Gerais de Justiça do Ministério Público do RN.

Destaco entre os homenageados da galeria os macaibenses Alberto Maranhão, Luis Tavares de Lyra e Henrique Castriciano de Souza.


Apesar de já haver sido inaugurada, a Galeria dos Procuradores Gerais estava incompleta e foi preciso uma pesquisa mais detalhada para reunir dados que pudessem organizar todos os chefes do MPRN. A pesquisa foi realizada pela equipe do Memorial, com a qual contribui doando a fotografia e a biografia de meu tio-trisavô Dr. Luis Tavares de Lyra.


A inauguração da Galeria faz parte de um processo de valorização da história da instituição. Afinal de contas, é preciso refletir: quais memórias o MPRN quer deixar para as futuras gerações? Parabenizei o Promotor de Justiça Manoel Onofre de Souza Neto em nome das famílias Tavares de Lyra e de Alberto Maranhão, enaltecendo a importância do ato para a consolidação da memória da justiça no estado do RN.