sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Macaíba: da fundação a elevação à vila.


Primitiva ponte sobre o Rio Jundiaí, construída ainda durante o império por Estevão Moura e Fabrício Pedroza. Foto: José Muniz de Melo, cerca de 1930.


Quando teve início a ocupação territorial de Macaíba? Quando foi fundada? Por que comemorar o dia 27 de outubro como a maior data municipal? Esses e outros elementos da história de Macaíba serão analisados no presente artigo, no qual apresentaremos subsídios demonstrando que comemoramos erroneamente a data municipal.

O espaço territorial ocupado atualmente pela cidade de Macaíba é antiquíssimo quanto à ocupação, remontando ao ano de 1614, data das distribuições das primeiras sesmarias que englobavam o espaço geográfico da cidade. Contudo, por essa época, toda a ribeira do Jundiaí fazia parte da cidade do Natal e não se possuía uma perspectiva, mesmo diminuta, de formação de um povoado.

Com a construção do antigo engenho Potengi, hoje Ferreiro Torto, não houve alteração dos planos relativos a uma cidade, ou seja, os fundadores do engenho ergueram tão somente um espaço de exploração da terra, sem perspectivas evolutivas para um povoado.

Tempos mais tarde, precisamente após a decadência econômica do engenho Potengi e o local já transformado em quartel do Terço dos Paulistas, cujos milicianos vinham combater na chamada Guerra do Gentio Tapuia. Com o término da guerra alguns não retornaram aos seus locais de origem, espalhando-se pela ribeira do Jundiaí e do Potengi, erguendo fazendas de criação e engenhos, como foi o caso do sargento-mor José de Morais Navarro, que reestruturou o antigo engenho Potengi.

Outro miliciano que não retornou as suas terras foi o coronel Manoel Teixeira Casado, que juntamente com o alferes Roque da Costa, receberam uma sesmaria margeando o Rio Jundiaí a qual deram o nome de Sítio Coité. Os sesmeiros nada fizeram para iniciar um povoado, limitando-se somente a criação e ao cultivo da terra com poucos escravos.

O sítio Coité foi sendo herdado pelos descendentes do coronel de milícias Manoel Teixeira Casado, até sua neta Maria Angélica da Conceição, casada com o coronel de milícias Joaquim José do Rego Barros, senhor do engenho Ferreiro Torto e que depois de participar da junta governativa provincial de 1821, juntamente com o capitão Francisco Pedro Bandeira de Melo, vendeu a este a propriedade Coité com todas as benfeitorias então existentes, recolhendo-se ao Ferreiro Torto.

O capitão de milícias Francisco Pedro Bandeira de Melo prossegue criando e plantando no sítio Coité. Eis que surge o comerciante Fabrício Gomes Pedroza, senhor do engenho Jundiaí e após o casamento com Damiana Maria Bandeira de Melo, filha do capitão, herda a propriedade e imbuído de uma visão econômica mais ampla, teve o pioneirismo de pensar e fazer um povoado.

Fabrício Pedroza não pensou pequeno como seus antecessores quanto espaço de terra que herdou. Rapidamente construiu armazéns para receber as mercadorias vindas do sertão com destino a capital e atraiu para o lugarejo várias pessoas de suas relações comerciais para se fixarem no sítio, fundando uma feira com esses comerciantes.

Conforme o diário de notas familiar intitulado Aos Meus, de autoria de Maria Terceira da Silva Pedroza:

(...) naquele dia 26 de outubro de 1855, aniversário de papai, ele reuniu representantes do clero, amigos e familiares, não para sua comemoração natalícia, mas sim, para a fundação de um povoado pelo qual bateu-se com todas as forças para ver prosperar. Assim nasceu o povoado da Macaíba, margeando o Jundiaí. (PEDROZA, manuscrito Aos meus, 1900).

A lei provincial n. 801, de 27 de outubro de 1877, sancionada pelo presidente (governador) do Rio Grande do Norte José Nicolau Tolentino de Carvalho diz em seu artigo 1: Fica elevada à categoria de vila a povoação da Macaíba, da freguesia de São Gonçalo, com a mesma denominação. Contudo, o presidente da câmara municipal de São Gonçalo do Amarante, buscou adiar o quanto pôde a transferência de sede, o que deixou sem efeitos legais a lei de 27 de outubro de 1877.

Somente quando o capitão da Guarda Nacional Vicente de Andrade Lima, coadjuvado pelo vereadores macaibenses coronéis Feliciano de Lyra Tavares, Inácio da Silva e capitão João Lourenço de Oliveira Mendes, conseguiram, através de uma manobra com o então presidente da província Euclides Diocleciano de Albuquerque, a edição de uma nova lei n. 832, de 7 de fevereiro de 1879, é que, finalmente, foi transferida a sede de São Gonçalo para  Macaíba. Assim, 7 de fevereiro de 1879 é, de fato, a real data de elevação do povoado a vila da Macaíba.

O texto de D. Maria Terceira Pedroza, nos fornece elementos suficientes para determinarmos a data precisa de fundação de Macaíba. O que acontece atualmente é um equívoco histórico. Todo ano comemora-se o dia 27 de outubro de 1877, quando o povoado foi elevado à categoria de vila, e mesmo essa lei, sem efetividade prática, pois, como vimos, teve que passar por outra lei, para ter a sede administrativa transferida de São Gonçalo do Amarante para Macaíba.

Macaíba não tem somente 139 anos de história! É preciso rever essa data, sob pena de continuarmos em um erro histórico, repassado de geração a geração. Comemorar o 27 de outubro de 1877, como a data municipal, é esquecer o legado histórico da fundação da cidade em 26 de outubro de 1855. É negar a existência da história macaibense quando ela se apresenta mais rica e mais cheia de elementos, práticas e representações formadores de sua comunidade.

sábado, 15 de outubro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Biblioteca Ministro Tavares de Lyra

Foi inaugurada dia 01 de setembro, a Biblioteca Ministro Tavares de Lyra, do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte. A decisão é uma homenagem ao potiguar que foi ministro e presidente do Tribunal de Contas da União entre 1938-40. Tavares de Lyra foi ainda Deputado Federal de 1894-1904; Governador do RN de 1904-06; Ministro da Justiça de 1906-09; Senador da República de 1910-14; Ministro da Viação e Obras Públicas de 1914-18 e historiador de sua terra.

A Resolução nº 013/2011 de 01 de setembro de 2011, foi assinada pelo presidente Conselheiro Valério Alfredo Mesquita e pelos conselheiros Alcimar Torquato de Almeida, Cláudio José Freire Emerenciano (em substituição legal), Maria Adélia de Arruda Salles, Paulo Roberto Chaves Alves (impedido legalmente), Renato Costa Dias, Carlos Thompson Costa Fernandes e o procurador geral do Ministério Público junto ao TCE Thiago Martins Guterres.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Em Caicó...


Estive na histórica cidade de Caicó, localizada na região do Seridó Potiguar, para pesquisas e estudos históricos/genealógicos. A cidade é, sem dúvida, a guardiã da memória histórica mais bem preservada do nosso Estado. Tradição e história se misturam para fecundar a cada dia a memória indelével de um povo bravo e lutador.

No centro administrativo da cidade, deparei-me com uma situação um tanto inusitada. A sede da prefeitura municipal estava, no sábado, transformada em QG da História e da Genealogia, por obra do Prefeito de Caicó, Bibi Costa. O prefeito, genealogista reconhecido em sua terra e meu confrade de Instituto de Genealogia, que atende e despacha durante a semana os assuntos governamentais, deixa o sábado para a pesquisa.

Fui encontrá-lo em seu gabinete. Ele estava absorto na leitura, cercado pelos livros, pelos jornais e pelas anotações das mais variadas áreas sob o olhar maternal da pintura de Sant’Ana. Entreguei-lhe fotos antigas do Município do Caicó e que pertenceram ao acervo de meu tio historiador Augusto Tavares de Lyra.

O genealogista Bibi Costa está terminando sua pesquisa sobre a família Fernandes Pimenta, na qual descobriu a ligação genealógica entre o historiador Luiz da Câmara Cascudo com o português Antônio Fernandes Pimenta, estabelecido em Caraúbas e patriarca da família e que, até então, fora segredo de Hermes Trimegisto para os genealogistas potiguares.

Bibi Costa possui uma pesquisa inédita sobre as práticas culturais dos ciganos do grupo Calon reconstruindo sua historicidade numa perspectiva sócio-cultural. Na pesquisa, Bibi aponta grupos, distingue dialetos, traduz palavras e expressões desse grupo de ciganos que vivem na cidade de Florânia/RN.

Sabe-se que os ciganos do grupo Calon não possuem história escrita nem tampouco memórias esboçadas em grafias. Eles guardam e preservam na memória os seus segredos, suas histórias e sua identidade. Segundo Bibi Costa, a identidade dos Calon é de resistência, construída por atores que se encontram em condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação. Isso leva à formação de comunas ou comunidades e dá origem a formas de resistência coletiva diante de uma opressão social. Os ciganos do grupo Calon constroem coletivamente essa identidade de resistência e formatam a possibilidade de criação de um novo movimento social.

Também me despertou a atenção a genealogia que ele está desenvolvendo sobre a família do Dr. Amaro Cavalcanti, irmão do padre João Maria. Tratar-se da reconstituição familiar de dois personagens seridoenses importantes da história do RN. Não existe pesquisa nesse sentido no RN, assim a divulgação desse estudo tem sido bastante esperada.

Bibi Costa não para quando se trata de assuntos voltados para história e cultura do seu Município e seu Estado. Ele falou-me de seu mais recente projeto: está digitalizando todos os documentos históricos contidos nos arquivos da municipalidade, assim como os oriundos da Biblioteca Pública Olegário Vale, de onde emergem valiosos documentos, como uma coleção do jornal A República e do Diário Oficial do Estado e livros raros, que depois de serem restaurados ficarão a disposição da população na referida biblioteca.

Ainda dentro dessa perspectiva da preservação da memória, Bibi e sua equipe pretendem instituir um Centro de Pesquisa Histórica do Seridó que contará com o acervo pessoal do genealogista e historiador Olavo de Medeiros Filho, numa justa homenagem ao seridoense que divulgava sua gleba com pesquisa séria e reconhecida.

Fiquei feliz em observar a preocupação do Prefeito Bibi Costa com a preservação da memória da sua terra e da sua gente. E com o quanto nos ensina a cidade de Caicó com seu exemplo edificante de reconhecimento da história, da genealogia e das tradições locais como guias da identidade cultural de um povo que é singular sob vários aspectos em nosso Estado.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carlos Moura - retrospecto genealógico

Da direita para a esquerda: Carlos Moura, Chico Moura, Joanete, Chambrinha, Tonito e Neném Simplício. O garoto e Marcos Magalhães. Família reunida no casarão da Rua da Cruz, em Macaíba/RN. Foto acervo Anderson Tavares

Com o falecimento de Carlos Augusto Ribeiro de Moura, no dia 14 de agosto passado, desapareceu o último membro da família mais antiga em terras macaibenses, que residia na cidade. Era descendente direto do coronel Manoel Teixeira Casado, na linhagem do coronel Estevão Moura.

A família Moura de Macaíba, além da ilustre ascendência que parte do coronel Estevão Moura, senhor do engenho Ferreiro Torto, e político renomado desde os tempos do Império, quando administrou o Rio Grande do Norte, origina-se do coronel de milícias Manoel Teixeira Casado, que é o nome mais antigo documentado, residente em terras macaibenses. Foi ele o fundador do sítio Coité, em 1728. Portanto, 127 anos de Fabrício Pedroza fundar a cidade da Macaíba.

Carlos Moura nasceu em Macaíba no dia 05 de maio de 1933, sendo filho de Francisco Canindé de Moura – Chico Moura (*1905 +1968) e de Joana Ribeiro de Moura – Joanete Moura (*1913 +2003), um casal querido em toda a Macaíba. Foi neto paterno do major Alfredo da Fonseca Moura e Maria Chambre da Fonseca Moura, antigos senhores da fazenda Arvoredo. E materno do comerciante Vicente Paulo Ribeiro de Souza e Maria Ambrosina Marinho de Carvalho.

Funcionário público estadual e atleta de futebol durante a juventude, Carlos Moura foi casado em primeiras núpcias com Ilná de Oliveira Moura, em 25 de janeiro de 1958, tendo gerado dois filhos: Francisco Carlos de Oliveira Moura e Kleber José de Oliveira Moura, ambos ex vereadores de Macaíba. Do segundo casamento com Regina Célia de Souza Moura, tiveram Raissa Tatiane. Além de 4 netos.

Residiu durante anos no casarão da Rua da Cruz, estava residindo atualmente na comunidade de Mangabeira. O blog através deste rápido retrospecto biográfico apresenta seu sincero pesar a todos os descendentes de Carlos Moura.



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Centenário do Grupo Escolar Auta de Souza

O segundo governo de Alberto Maranhão (25 de março de 1908 - 31 de dezembro de 1913) foi o mais fecundo de realizações no período da República Velha, no Rio Grande do Norte. Dentro das reformas empreendidas pelo jovem governador macaibense destaca-se a implantação de uma rede educacional primária que, com o apoio dos Presidentes de Intendência, se estendeu a todo interior potiguar. Convém destacar que a implantação dos grupos escolares no ensino público brasileiro foi o principal projeto do regime republicano com o intuito de proporcionar uma cultura escolar laica e científica.

Em Macaíba, foi o Deputado Estadual coronel Prudente Alecrim quem insistiu junto ao governador pela instalação de um Grupo Escolar na cidade. Nessa época, Macaíba contava apenas com uma escola masculina e outra feminina; escolas rudimentares e isoladas, localizadas nos povoados; além de professores particulares, que eram uma constante na cidade e atendiam principalmente aos filhos dos mais abastados, educados no ambiente doméstico.

Pleito atendido de pronto pelo governador, no dia 19 de outubro de 1911, Alberto Maranhão sancionou a Lei Estadual nº 255 e instituiu um Grupo Escolar denominado Grupo Escolar Auta de Souza. Igualmente assinou o decreto o Secretário Geral do Estado, Francisco Pinto de Abreu,  incentivador do desenvolvimento educacional no Rio Grande do Norte.

A partir daí, os irmãos João Câncio, Eloy e Henrique Castriciano de Souza emocionados com a homenagem à memória da irmã poetisa doaram a antiga residência da família para que fosse instalada a escola. O deputado Prudente Alecrim solicitou do comércio local os móveis e utensílios necessários à instalação da escola e a Intendência Municipal designou o porteiro do prédio.

Logo em seguida foi designado o primeiro diretor do novo estabelecimento educacional o Dr. Virgílio Otávio Pacheco Dantas, juiz de direito da comarca. Outros nomes se seguiram no labor direcional da escola: Bartolomeu da Rocha Fagundes, Paulo Vieira Nobre, Nicaule Maria do Carmo, Arcelina Fernandes de Souza, Dalila Cavalcanti de Albuquerque, Nazaré Madruga, Enedina Augusta, Constança Freire de Macedo, Mariluza Almeida, Berenice Guedes, Maria Neta Peixoto, Maria de Fátima e Francisca Goreti Florêncio da Silva. Muitos desses diretores acumularam as funções de direção e do magistério.

O Grupo Escolar Auta de Souza passou a proporcionar aos seus alunos Ensino Primário que tinha quatro anos de duração. Também contava com a chamada Escola Complementar que tinha três anos de duração. Por ser um grupo escolar, os saberes ensinados eram definidos pela Diretoria de Instrução Pública do Estado do Rio Grande do Norte.

No Primário ensinava-se Língua Portuguesa, Aritmética, História do Brasil, Geografia do Brasil e Cantos Pátrios, tudo de acordo com as orientações oficiais. Eram também contemplados os conhecimentos religiosos, nas aulas de doutrina e cantos religiosos. Na Escola Complementar, os conhecimentos ministrados eram mais elaborados e contava com o ensino de outras línguas, principalmente o francês. O alunado era misto, sendo dividido em seção feminina e seção masculina.

Para além das atividades pedagógicas, o Grupo Escolar Auta de Souza passa a ser o centro aglutinador das atividades culturais e festivas de Macaíba. Em seu salão nobre foram realizados banquetes para recepcionar os presidentes Washington Luís e Getúlio Vargas; a líder feminista Bertha Lutz foi recepcionada e lá assistiu ao alistamento eleitoral das primeiras eleitoras de Macaíba; Madrinha Beleza (Isabel Freire da Cruz) encenou com seus alunos os “dramas” e; Dona Ana Alecrim tocou as mais belas canções em seu piano Pleyo para o deleite dos convidados.

Nesses quase cem anos, milhares de alunos passaram pelos bancos escolares do Grupo Escolar Auta de Souza e da Escola Estadual Auta de Souza, recebendo formação educacional e desenvolvendo competências que os ajudaram na profissão e no desempenho de suas atividades intelectuais em diferentes áreas da sociedade.

Enaltecer o antigo Grupo Escolar Auta de Souza é falar de uma escola de vida, de alegria e criatividade. Escola que, durante cem anos de existência, buscou acompanhar as mudanças na educação e na cultura, onde a prática curricular se desenvolvia coerente com o crescimento da cidade da Macaíba, do Estado, do Brasil e do Mundo.